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"Desrespeito" por segurança mata ao largo da costa de Leiria
"Desrespeito" pelas normas de segurança entre as razões que ceifaram vida a pescadores ao largo da costa do distrito de Leiria. Desde 2005, a Capitania da Nazaré registou 11 vítimas mortais, números que aumentam quando contabilizados os homens do mar desaparecidos desde a passada quinta-feira
É o ganha-pão para muitos pescadores e uma aventura para quem mergulha à descoberta de verdadeiros tesouros submersos, mas a verdade é que o mar na costa do distrito de Leiria tem 'reclamado' para si a vida de, pelo menos, duas pessoas por ano, sobretudo devido ao "desrespeito" pelas normas de segurança. O naufrágio da embarcação 'Luz do Sameiro', que ceifou a vida a sete pescadores, em Dezembro de 2006, e o desaparecimento de quatro homens do mar na passada quinta-feira, ao largo de Peniche, são dois exemplos da força da natureza contra o Homem. Segundo dados recolhidos pelo Diário de Leiria junto da Capitania da Nazaré - cuja área de jurisdição vai desde a Praia do Pedrógão até junto a S. Martinho do Porto -, desde 2005 foram registadas 11 vítimas mortais, entre naufrágios e acidentes de pesca lúdica. Albuquerque e Silva, comandante da Capitania da Nazaré, apontou alguns casos ao nosso jornal, como o acidente de dois pescadores que, em Janeiro de 2006, perderam a vida na Praia do Salgado (Nazaré) quando praticavam faina. Na mesma altura, um homem morreu na Praia da Légua (Alcobaça) quando fazia caça submarina. No início de 2007, um pescador lúdico caiu mortalmente de uma falésia em Salir do Porto (Caldas da Rainha). Em Julho de 2009, um homem de 33 anos desapareceu ao largo de Peniche quando fazia mergulho integrado num grupo de quatro pessoas. Em Agosto do mesmo ano, um outro homem praticava pesca desportiva quando foi dado como desaparecido ao largo da costa na Praia do Pedrógão (Leiria). Era professor de natação e seguia numa pequena embarcação intitulada 'Trombas'. Foi encontrado uma semana depois. Sobreviveram duas pessoas. Números recolhidos pelo nosso jornal da restante costa do distrito contabilizaram ainda a morte de um pescador desportivo em Junho de 2008, que perdeu a vida ao largo das Berlengas (Peniche), na sequência de uma queda para o mar. A vítima, de 42 anos, residia em Sintra, e encontrava-se com um grupo de pescadores numa zona escarpada. Entre as histórias trágicas de vidas perdidas no mar, contam-se, porém, situações de pessoas que sobreviveram para contar a sua versão, como o caso de quatro pescadores que, em Maio de 2008, viram a sua pequena embarcação virar ao largo da Praia da Vieira (Marinha Grande), numa zona de rebentação de ondas. Escaparam ilesos, conseguindo nadar até à costa. A embarcação foi igualmente resgatada. Em Junho do mesmo ano, também sete pescadores da embarcação 'Monte do Senhor' não ganharam para o susto. O barco naufragou ao largo de Peniche, tendo os tripulantes, com idades compreendidas entre os 22 e os 58 anos, sido resgatados pelas autoridades. Na altura do acidente, pescavam cherne quando a embarcação começou a encher-se de água. Nos números divulgados pela Capitania da Nazaré não estão contabilizadas as vítimas mortais registadas durante as épocas balneares.
Desrespeito na origem dos acidentes mortais
Apesar de reconhecer que "os acidentes no mar nunca têm uma causa única", a verdade é que o comandante da Capitania da Nazaré considera o "desrespeito" pela segurança a principal causa para o número de casos mortais registados na região. "São uma sequência de erros, mas o mais frequente acontecer é o desrespeito pelas normas de segurança que, aliado às condições adversas do mar, origina acidentes mortais", explicou ao Diário de Leiria Albuquerque e Silva. O comandante da Capitania da Nazaré vale-se da sua experiência ao afirmar que, "se o estado do mar está mau, há que pensar duas vezes se vale ou não a pena entrar no mar ou aproximar-se da costa". "Há pessoas que arriscam demasiado", admitiu. Ainda assim, Albuquerque e Silva compreende as motivações que levam alguns pescadores a arriscar e a fazerem-se ao mar. "Há um período prolongado em que não podem ir para o mar, mas depois sentem-se na obrigação de arriscar, porque é o seu ganha-pão", referiu. Reconhece que pouco mais pode fazer para controlar a entrada e saída das embarcações de cada porto. Albuquerque e Silva explicou que "o papel das autoridades é encerrar as barras quando está mau tempo, mas só são fechadas pelas condições adversas junto aos portos". Quanto aos acidentes mortais na pesca lúdica, aquele responsável atribui igualmente o principal factor à "falta de respeito pelas normas de segurança". "Acontece, porque os pescadores vão para as falésias instáveis, e basta uma onda para os arrastar para o mar", frisou.
Pescadores continuam desaparecidos
Até à hora de fecho desta edição, as buscas para encontrar os quatro pescadores desaparecidos ao largo de Peniche revelavam-se infrutíferas. A embarcação 'Fábio e João' afundou quinta-feira, com quatro pescadores a bordo, entre os 40 e os 55 anos e todos de Ribamar (Lourinhã).
Naufrágio da 'Luz do Sameiro' foi o pior dos últimos anos na região
O naufrágio da embarcação 'Luz do Sameiro' foi o pior acidente dos últimos anos ocorridos na costa da região. O acidente ocorreu no fim de 2006, quando a 'Luz do Sameiro' entrou em dificuldades junto à Praia da Légua, Alcobaça. Seis pescadores de Vila do Conde, perderam a vida. Com 18 metros de cumprimento, a 'Luz do Sameiro' transportava sete tripulantes, um das quais de nacionalidade ucraniana, com idades compreendidas entre os 40 e os 50 anos, quando, por razões desconhecidas, terá sido empurrado pela ondulação para junto à costa. Dois nadadores-salvadores ainda se lançaram à água pouco tempo depois do naufrágio, mas a forte ondulação, o gasóleo derramado pelo barco e as redes prejudicaram a operação de resgate. As seis vítimas mortais eram casadas, com filhos, e o mestre da embarcação "tinha muita experiência no mar", contaram ao Diário de Leiria testemunhas no local. Quatro dos pescadores ainda conseguiram sair para o exterior da embarcação pedindo socorro, mas não resistiram à fúria da água e acabaram por morrer. O único sobrevivente do naufrágio - um indivíduo de nacionalidade ucraniana, com cerca de 40 anos, que desempenhava as funções de cozinheiro -, conseguiu segurar-se às estruturas em ferro da embarcação, e acabou por ser resgatado por um helicóptero da Força Aérea Portuguesa.
Helena Amaro |