Leiria despediu-se do último 'alcaide' do Castelo
Os leirienses conhecem-no como o último ‘alcaide’ do Castelo de Leiria. Mas, a exemplo da vivacidade e da alegria que sempre manifestou, cativando a simpatia de todos - e foram muitos - os que com ele privaram, Basílio Artur Pereira foi um homem de várias actividades e profissões.
Futebolista, bombeiro, viajante, mecânico de cofres e serralheiro, fez de tudo um pouco nos seus longos 96 anos. Uma experiência de vida que está na memória de muitos, mas mesmo muitos leirienses, centenas dos quais se despediram ontem do último guarda da fortificação da cidade do Lis.
Talvez por ironia do destino, Basílio Artur Pereira morreu no dia em que a associação do seu bairro - da qual foi o primeiro dinamizador - completou 26 anos. Era o sócio número um. Ontem, um dia depois de deixar este mundo, o nosso mundo, foi a sepultar para o cemitério de Leiria, com os seus 96 anos.
Acompanharam-no na sua última viagem - além da filha com quem viveu nos últimos anos em Penalva do Castelo, Viseu -, muitos familiares e amigos a quem deixa saudade… saudade do seu sorriso, simpatia, humor, conhecimento, cultura popular e, sobretudo, amizade. Compareceram na sua cerimónia leirienses de todas as actividades, seja das áreas da cultura e associativismo, desportiva, empresarial, política, entre outras.
"O senhor Basílio foi o maior impulsionador da Associação Desportiva, Cultural e Recreativa dos Bairros dos Anjos, tendo desempenhado um papel muito importante na sua criação. Era uma referência e fez impulsionar o espírito bairrista e a necessidade do Bairro dos Anjos se afirmar". A par de Mário Monteiro, presidente daquela associação leiriense, também o autarca Raul Castro realça a capacidade de dinamização do leiriense. "É uma referência de Leiria, porque não existe Homem com mais sentimento bairrista do que ele. Era uma pessoa que sempre lutou por Leiria, sempre participou em muitas iniciativas em prol da cidade, portanto, é uma figura marcante", realça o presidente da câmara leiriense.

Leiriense de 'sete ofícios'

Basílio Artur Pereira nasceu a 17 de Agosto de 1913. Quando completou 90 anos, 'abriu o coração' ao público. "Como é bom ter amigos", escreveu num jornal da cidade já desaparecido. Além da família, sempre presente, enalteceu a "companhia de bons amigos" no seu aniversário. E, de facto, fazer amigos era uma das grandes virtudes do último 'alcaide' do Castelo de Leiria.
Foi no 'seu' Bairro dos Anjos que Basílio Artur Pereira nasceu. "Foi lá que me fiz homem", disse, numa entrevista, publicada por ocasião dos seus 88 anos. Começou por recordar a sua 'história' quando tinha seis anos, altura em foi viver para o Arrabalde da Ponte, também na cidade do Lis, frequentando, até à 2.a classe, a escola dos Marrazes. Acabou a instrução primária na Escola Santo Estevão.
"Quando era jovem corria a cidade toda. Participava em encontros juvenis, actividades desportivas e fiz parte da antiga Associação dos Artistas de Leiria", recordou em 2001. Foi naquele período juvenil que Basílio Artur Pereira se interessou pelo desporto, nomeadamente pelo futebol, na posição de guarda-redes, um modalidade que começou a praticar no antigo Ginásio Desportivo do Lis.
"Tive de desistir do futebol durante dois anos por recomendação médica. Era muito magrinho e precisava de ganhar físico para puder jogar", recordou, acrescentando que o "futebol a sério" foi praticado enquanto cumpriu o serviço militar, ao integrar a equipa da base de Tancos, onde esteve após ter feito a recruta em Abrantes, entre 1934 e 1935.
Foi também no auge da sua juventude que Basílio Artur Pereira se alistou nos Bombeiros Voluntários de Leiria (BVL), em 1930, onde permaneceu durante 15 anos. Depois transitou para os Bombeiros Municipais como motorista mecânico, de onde saiu em 1948 e após ter estado cinco anos nos serviços auxiliares. Pela entrega à profissão, recebeu a Medalha de Mérito por Serviços Distintos, atribuída pela Liga dos Bombeiros Portugueses, em Maio de 2001.
Foi ainda no período de soldado da paz que Basílio Artur Pereira trabalhou como viajante. A Alemanha de Hitler e os países aliados travavam uma guerra na Europa e no mundo e o leiriense trabalhava numa empresa distribuidora de peças de automóveis e de acessórios para a indústria. Durante dois anos percorreu todos os caminhos da Beira Alta, Beira Baixa e parte do distrito de Leiria. "Eram viagens muito maçadoras e cansativas. Chegava a estar um mês sem ir a casa", recordou em 2001.
Em 1952, Basílio Artur Pereira abraçou, definitivamente, e durante quatro décadas - até 1992 -, a actividade de guarda do Castelo de Leiria. A profissão não tinha segredos para o 'alcaide', uma vez que já o avô e o pai tinham exercido a actividade. Basílio Artur Pereira voltava a seguir as pisadas da família, porque também o avô - um dos fundadores do BVL - e o pai foram soldados da paz.
O convite para 'alcaide' do Castelo de Leiria partiu do arquitecto Ernesto Korrodi. Trabalhou no monumento sempre na companhia da sua mulher, Fernanda da Conceição Marques Pereira, que exercia as funções de porteira. Homem de 'sete ofícios', Basílio Artur Pereira teve ainda uma oficina de mecânica de cofres e serralharia de bancada, profissão que aprendeu também com o pai. "Foi o meu mestre", confessou no início da última década.

O 'abraço' à escrita

Nos últimos 20 anos, a escrita passou a ser um dos seus passatempos, porque histórias para contar não lhe faltavam. Uma parte acabou mesmo em livro, intitulado 'As minhas lembranças'. "O que escrevi não o fui buscar a nenhum livro ou a uma biblioteca, mas sim às memórias do que vivi", referiu em 2001. No seu 'abraço' à escrita há 'espaço', também, para a poesia, alguma dela partilhada com os leirienses.
Os jornais da cidade do lis, com os quais sempre colaborou, entre eles o Diário de Leiria, foram 'veículos' de muitos dos seus pensamentos. Um dos seus últimos poemas foi tornado público em 2002. "Porque não um mundo mais feliz", perguntava Basílio Artur Pereira, insatisfeito com a sociedade que o rodeava, mas com a qual foi aprendendo a ser feliz. Assim o transmitiu na 'sua' cidade, que com ele também muito aprendeu.

 

 

 

Nuno Henriques