O Papa e o Presidente
O mundo de hoje é muito diferente e distinto do da Idade Média. Em 1077 a Igreja Católica era a única instituição Cristã que existia, não havia nem Ortodoxos, nem Protestantes, Baptistas ou Evangélicos, ou as múltiplas outras denominações Cristãs que hoje existem.
Sendo o Papa o chefe da Igreja, a sua palavra tinha um peso decisivo numa sociedade Cristã, feudal, em que as relações entre suseranos e vassalos eram pautadas por juramentos e obrigações sancionadas pela Igreja. A Igreja era uma espécie de notário do mundo ocidental e só uma Bula Papal, como foi o caso com Portugal, permitia reconhecer o nascimento jurídico de um novo país.
Nesse mundo, a excomunhão de um rei era quase uma sentença de morte legal: os vassalos ficavam desobrigados do seu juramento de lealdade perante o suserano e podiam até escolher outro, uma vez que o que existia estava excluído da comunhão Cristã. Era o equivalente Cristão do ostracismo Ateniense, e era muito eficaz.
Por causa do direito de investir bispos, que eram senhores espirituais e temporais, Papas e Imperadores entraram em conflito. O Imperador do Sacro-Império Romano-Germânico, Henrique IV entrou por essa razão em conflito com o Papa Gregório VII, a quem, num momento de despeito chamou “falso monge” e pretendeu substituir escolhendo outro papa.
Gregório VII, excomungou Henrique IV e este, perante o perigo real de desafecção dos seus vassalos, decidiu pedir perdão ao Papa e encaminhou-se para Itália, onde o Papa o recebeu no sopé dos Alpes, em pleno Inverno, depois de o ter feito esperar três dias à porta do castelo de Canossa, onde se encontrava. Depois perdoou-lhe. É um incidente célebre que selou o estado das relações entre o Papado e o poder temporal dos soberanos europeus, por séculos.
No mundo de hoje, os Papas já não possuem nenhum poder que se pareça com esse, mas porque são os chefes e sumos pontífices de uma Igreja com bilião a bilião e meio de Católicos, e porque hoje, a palavra do Papa chega no mesmo dia e na mesma hora a todos os Católicos, onde quer que estejam, porque presidem a uma Igreja verdadeiramente universal, a influência de que dispõem é ainda assinalável.
Nos Estados Unidos, os Católicos são uma grande minoria, e são vistos, sobretudo nos Estados do Sul com desconfiança, por poder dar a impressão que são fiéis a dois senhores: ao Estado Americano e ao Papa. Papista é um insulto, nalguns lados.
O actual Papa, Leão XIV é até de nacionalidade americana, se bem que a sua vida adulta foi feita no Peru, país do qual também tem a nacionalidade. Pois este nativo de Chicago decidiu insurgir-se publicamente contra as guerras instigadas pelo Presidente Trump e negou peremptoriamente que Deus estivesse do lado dos agressores, como a actual administração americana parece pretender.
O Presidente Trump respondeu de forma desabrida chamando ao Papa «fraco» e afirmando que o Papa queria que o Irão pudesse dispor da arma nuclear.
Trump esqueceu-se que o Papa é o Pontífice soberano do Estado do Vaticano, que ao ser eleito Papa deixou de ser americano, ou peruano, para ser o chefe da Igreja Católica, que os seus pronunciamentos têm um especial valor moral para os Católicos, independentemente das suas variadas nacionalidades, e que a arena de intervenção do Papa não é a política, mas antes a moral e a religião.
Em suma, ao atacar o Papa, Trump ofendeu 1.2 ou mais mil milhões de Católicos alguns dos quais (50 a 80 milhões) americanos.
É necessário contextualizar: uma boa parte dos estado-unidenses não são Católicos e muitos não têm nenhum apreço especial pelo Papa. Mas, para aqueles que o são, o ataque ao Papa é uma ofensa. Veremos em Novembro, nas eleições intercalares qual é o peso acumulado das variadas ofensas que Trump tem causado aos mais variados círculos sociais e de opinião. E veremos até lá se Trump, ou por ele ou através do seu Vice-Presidente que se proclama Católico, não percorrerá também ele o «caminho de Canossa», de forma a tentar evitar não a desafecção dos vassalos, mas a dos eleitores.





