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Estamos a somar anos à vida. Mas estamos a somar vida aos anos

Junho 9, 2026 . 10:30
Opinião de Rui Francisco: "Há pessoas de cinquenta anos que planearam a reforma ao cêntimo e nunca pensaram com quem vão jantar quando tiverem oitenta. Aprendemos a gerir o colesterol. Não aprendemos a preparar a longevidade"

A medicina fez o seu trabalho. E bem. Nas últimas décadas, conseguiu algo que gerações anteriores julgavam impossível: ganhar anos à vida. Hoje vivemos mais do que os nossos pais, muito mais do que os nossos avós. É uma conquista extraordinária, e merece ser reconhecida como tal.
Mas há uma pergunta que quase ninguém nos ensinou a fazer: e agora, o que fazemos com esses anos?
Porque enquanto a medicina avançava, outra realidade ficou para trás. Não o corpo — esse aprendemos a acompanhar com consultas, medicamentos e rastreios. O que ficou para trás foi tudo o resto: a dimensão psicológica de viver com sentido, a dimensão social de não ficar isolado, a dimensão cultural de ser história de vida e continuar a ter lugar, voz e participação. Essas ficaram órfãs.
O resultado é um estranho desfasamento civilizacional: tornámo-nos muito bons a prolongar a vida e continuamos pouco preparados para pensar como vivê-la.
E a responsabilidade, sendo de todos, começa em cada um de nós. O problema não está apenas nas políticas públicas nem nos sistemas de saúde. Está num vazio de educação que nunca ninguém preencheu. Não há cadeira, programa, nem conversa que prepare as pessoas para pensar a sua própria longevidade. Há pessoas de cinquenta anos que planearam a reforma ao cêntimo e nunca pensaram com quem vão jantar quando tiverem oitenta. Aprendemos a gerir o colesterol. Não aprendemos a preparar a longevidade.
A maioria chega às fases mais avançadas da vida sem nunca ter pensado verdadeiramente que tipo de vida quer ter nessa etapa. Não por irresponsabilidade — simplesmente porque nunca ninguém lhes disse que essa reflexão devia começar cedo. E quando finalmente aparece — quando a solidão já se instalou, quando o propósito enfraqueceu, quando a rede social diminuiu ou quando a autonomia começa a falhar — as escolhas já não são livres. São as escolhas possíveis.
Este é talvez um dos grandes problemas do nosso tempo: a falta de literacia de longevidade. A ausência de uma cultura que normalize perguntar, aos quarenta ou aos cinquenta anos, não apenas "quanto tempo vou viver?", mas sobretudo "como quero viver, e estou a construir essa vida agora?"
A medicina somou os anos. Essa parte está feita.
A vida que colocamos dentro desses anos — as relações, a participação, o propósito, o prazer de continuar a existir com significado — essa continua a ser uma responsabilidade que ainda não assumimos. Nem como indivíduos, nem como sociedade.
Porque a longevidade não começa na velhice. Começa muito antes.

Junho 9, 2026 . 10:30

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