Envelhecimento e doença
O envelhecimento da população portuguesa é uma realidade, estimando-se hoje que cerca de 24% da população tem idade igual ou superior a 65 anos, sendo o escalão etário acima de 85 anos o que percentualmente mais cresce. Sabendo-se que a probabilidade de ter doença aumenta com a idade, é natural que em Portugal a carga de doença associada ao envelhecimento seja cada vez maior.
As consequências vão, contudo, para além da área da saúde, sendo um claro desafio não só para os médicos e outros profissionais de saúde, mas, também, para sociedade em geral. Para a sociedade em geral porque o envelhecimento acarreta problemas económicos, sociais e até éticos; para o sistema de saúde porque significa mais doentes e, consequentemente, maior procura de cuidados de saúde e necessidade de recursos humanos e instituições preparadas; para os médicos e outros profissionais de saúde porque, cada vez mais, com exceção da área da Pediatria, tratam maior número de idosos e estes apresentam particularidades clínicas que aqueles têm de conhecer.
O envelhecimento aumenta o risco de doenças agudas e crónicas, conduzindo, consequentemente, à frequente polipatologia e polimedicação encontradas nos idosos. Mas o problema não reside apenas num maior número de doenças, pois também a qualidade do doente idoso versus não idoso é diferente.
O envelhecimento dos vários órgãos e sistemas do corpo humano, causando frequente diminuição da capacidade da reserva funcional destes, faz com que os quadros clínicos dos idosos sejam muitas vezes atípicos e apresentem sintomatologia pobre e inespecífica, dificultando o diagnóstico. Por isso, avaliar e tratar um doente idoso implica conhecimentos complementares, tendo em conta que, nestes, no essencial, não são as doenças que são diferentes. É, sim, o doente que é diferente, justificando, por vezes, diferente orientação diagnóstica e terapêutica.
Os idosos apresentam uma grande heterogeneidade e, como tal, ainda mais do que na Medicina em geral, cada caso é um caso, devendo a sua abordagem médica ser sempre individualizada, pois, como é facilmente constatável, há pessoas com 80 anos em melhor condição do que outros com 70 e vice-versa. Para além disso, muitas vezes não basta tratar a doença, é necessário ir mais longe e avaliar outros aspetos onde o idoso possa ser deficiente e que possam condicionar o sucesso terapêutico e a sua qualidade de vida.
É por isso importante fazer uma avaliação multidimensional, na qual sejam também avaliados os aspetos funcional, mental, nutricional e social. Por vezes são estes aspetos, mais do que a própria doença em si, que condicionam a qualidade de vida e o prognóstico do doente idoso.
A resposta ao desafio chama-se formação em Geriatria, o ramo da Medicina que se ocupa das doenças dos idosos. Todos os médicos, bem como todos os profissionais da área da saúde, deveriam ter formação neste domínio durante o curso, complementada com formação pós-graduada durante a sua vida profissional. Esta é a exigência de uma sociedade cada vez mais velha, mas, também, cada vez mais competente do ponto de vista científico e técnico.





