Última Hora

Quando os músicos disserem que são um público fantástico… acreditem (pelo menos um bocadinho)

Abril 20, 2025 . 12:00
Opinião: “Penso que, quando estiver num concerto e o(s) músico(s) disserem que está ali o melhor público, vou mesmo acreditar, nem que seja um bocadinho… porque pode mesmo ser verdade”.

É frequente ouvirmos, durante um concerto, os músicos e/ou cantores tecer resgados elogios ao público perante o qual se encontram. Dizem que somos o melhor público, que somos excelentes, etc etc. Claro que aplaudimos de imediato pois todos gostamos de ouvir elogios, mas todos temos um lado mais cético e de imediato pensamos (verbalizando ou não) que o que nos disseram “é conversa da treta” e complementamos com “eles dizem o mesmo a todos, em todo o lado…”.
E isto será provavelmente verdade, ainda que… não uma verdade absoluta, mas uma meia-verdade.
Podem os artistas ou o público, “não estar nos seus melhores dias”, pode acontecer uma imensidão de situações que podem levar a um cenário de ausência de empatia entre as partes.
Mas também pode não acontecer nada disso e pura e simplesmente o público ser avesso a manifestações afetivas e ser muito profissional, ser tão ou mais profissional que os músicos profissionais. Se um espetáculo, uma peça de teatro, um concerto de música clássica, popular, rock ou outro estilo qualquer, tem uma duração definida, há que ser profissional e cumprir. Tanto pelos artistas, que devem cumprir os tempos previstos e anunciados, como pelo público, que deve conferir se o tempo de duração foi cumprido e, em caso de cumprimento de horários, se deve levantar e sair da sala (até porque os empregados que trabalham nas salas ou pavilhões, tem de ir para casa).
Peço desculpa ao público, mas duvido muito deste nível do vosso profissionalismo…
Ao longo da vida assisti a muitas centenas de concertos e (felizmente) apenas em duas vezes (não significa que não tivesse havido mais) assisti a este “nível de rigor” no cumprimento de horário, por parte do público.
Em meados dos anos 90, um duo britânico, então com enorme êxito à escala global, chamado Everything But The Girl, vieram a Portugal apresentar o seu então oitavo álbum, “Amplified Heart”, num concerto esperado com enorme expetativa, por um público que esgotou de imediato o Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
O concerto correspondeu às expetativas, foi um excelente concerto, mas assim que o duo saiu do palco, o público – inexplicavelmente, em minha opinião – começou a sair da sala, quando o duo estava no lado esquerdo do palco, pronto para entrar de novo em palco. Não tenho qualquer dúvida do que refiro, pois estava na primeira fila e vi os músicos a espreitar para escolher o momento de voltar ao palco, o que não aconteceu…
Esta cena repetiu-se na minha cabeça há dias, quando assisti em Lisboa a dois concertos de Tim (“Canta-me Histórias”), supostamente iguais. No primeiro, o músico dos Xutos & Pontapés contou histórias que fizeram a história da sua vida, cantou canções num ambiente – bastante – intimista, uma espécie de encontro de amigos na sala de casa. Cantámos todos, rimo-nos muito, dialogámos com Tim, e o concerto que deveria ter 90 minutos, acabou aos 150 minutos, com dois ou três regressos ao palco perante uma chuva de aplausos.
No dia seguinte tive oportunidade de ir ver o mesmo concerto, último de uma série de 5 ou 6, mais ou menos – como era de esperar – com as mesmas histórias, as mesmas músicas, ainda que por vezes com diferentes explicações, no caso das histórias. E aquilo que poderia ter sido uma repetição, foi algo completamente diferente. A começar pela desastrosa colaboração do público em resposta ao pedido de acompanhamento com palmas (conforme o Tim referiu com sentido de humor, algo parecido com o desmoronamento de um dominó) e a terminar com a saída imediata da sala, logo após a saída de Tim do palco. Sem pedir mais, sem esperar por um – óbvio – regresso do músico.
Penso que, quando estiver num concerto e o(s) músico(s) disserem que está ali o melhor público, vou mesmo acreditar, nem que seja um bocadinho… porque pode mesmo ser verdade.

Abril 20, 2025 . 12:00

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
94 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right