Opinião: Ter centrais nucleares teria evitado este apagão?
As centrais nucleares, como todos os centros electroprodutores com grandes turbinas, dão ao sistema elétrico a inércia que contribui para a estabilidade da frequência do sistema. A energia renovável intermitente (eólica e solar) não tem essa característica, o que torna um sistema elétrico muito mais vulnerável a apagões por oscilação excessiva da frequência.
Por essa razão, é absolutamente urgente um estudo de custos totais do sistema (TSC) que compare as opções que Portugal tem à sua frente para assegurar a fiabilidade deste bem essencial, em condições de segurança de abastecimento, de competitividade para a economia, e de impacto ambiental mínimo.
Só assim se poderá pensar em atrair investimento na indústria. Com a política atual, é seguro que os apagões se repetirão. Se virmos o PNEC 2030 e o PNIEC 2030 de Espanha, é óbvio que nos estamos a meter num grande sarilho. Não há capacidade de interligação entre França e Espanha que permita gerir a instalação de 115 GW de potencia intermitente, para uma procura ibérica que varia entre 55 GW e 25 GW, havendo apenas 5 GW de interligações. Será uma receita segura para mais apagões, especialmente se o governo espanhol insistir em fechar as suas centrais nucleares, em perfeitas condições de segurança.
Como já temos uma potência instalada de 6 GW de eólica e 6 GW de solar, para uma procura que varia entre 9,5 GW e 4,5 GW, as horas de preços negativos (que significam excesso de produção face à procura) aumentaram de forma geométrica. Por isso não se vão cumprir as metas fixadas, mas são necessários investimentos incomportáveis para permitir que o sistema funcione: Investimentos em extensão de rede, investimentos em baterias, pagamentos por capacidade para as CCGT continuarem a estar disponíveis, investimentos em eletrónica de potência para substituir (de forma imperfeita) a falta crescente de inércia do sistema.
Julgo que a solução a prazo passará por aquilo que os países mais avançados estão a fazer: nuclear para a carga de base e renováveis para a parte variável da procura, nomeadamente o inquestionável autoconsumo, usando a potencia em renováveis e a armazenagem já existente (hídrica reversível e baterias). Mas só o tal estudo TSC poderá dizer quais as opções que se têm que fazer para assegurar a máxima segurança, o mínimo custo, a máxima eficiência e o mínimo impacto ambiental.
Ontem o Governo chinês aprovou mais 10 novos reatores nucleares, com um investimento de cerca de 24 mil milhões de euros. Com este Capex, 2000€/kW, o LCOE do nuclear fica entre 30 a 40€/MWh com uma taxa de desconto de 6 %. O repowering da energia eólica, que terá que ser feito nos próximos 5 anos, tem um custo de 1100€/kW. As nucleares duram 60 anos, podendo facilmente chegar aos 90 anos, e produzem 8000 horas por ano com um Opex de cerca de 20€/MWh, incluindo o custo da gestão dos resíduos e o desmantelamento em fim de vida. As eólicas duram 25 anos, produzem em média apenas 2500 horas e têm um Opex de cerca de 10€/MWh. Não incluem os custos de desmantelamento e reciclagem dos resíduos em fim de vida.
São necessários 20 vezes mais materiais e recursos críticos para produzir uma unidade de energia eólica do que a mesma unidade de energia nuclear, e 100 vezes mais espaço. Outro tanto para armazenar a energia produzida em baterias ou barragens. Qual parece ao caro leitor a energia mais limpa e sustentável? É urgente abrir sem tabus nem preconceitos este debate em Portugal.





