Velhos problemas, novo mundo
O mundo está a mudar aceleradamente e nós não nos apercebemos. A terra gira no espaço e a alta velocidade, mas nós caminhamos sobre ela sem dar conta dessa giração. As mudanças que o mundo está a sofrer são iguais e também a alta velocidade; os paradigmas geo-estratégicos com os quais nascemos estão a mudar muito rapidamente, ao ponto de se poder dizer que numa geração nada será igual.
Há dias, numa conferência sobre o estado do mundo actual ouvia o historiador Rui Ramos explicar como entre o século XVII e o princípio do século XX, a Europa pós peste negra, em que se calcula que mais de 20% da sua população tenha morrido, se refez de tal maneira do ponto de vista demográfico que passou a gigantesco exportador de gente para o resto do mundo. No espaço de três séculos povoamos a América do Norte, partes austrais da América do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia, com climas mais parecido com o nosso e a até as regiões austrais da África, incluindo A África do Sul, a Rodésia, Moçambique, Angola, e no norte de África a Argélia, de onde em 1962 cerca de um milhão de franceses regressaram a França.
Este vazamento demográfico que exportou para o resto do mundo o excesso de gente da Europa foi acompanhado por um gigantesco e incremental desenvolvimento tecnológico, cientifico e cultural, que transformou a Europa no continente mais desenvolvido do mundo, cuja tecnologia era incomparavelmente superior a todas as outras, fosse em que domínio fosse, da astronomia à cartografia, às ciências da natureza e do corpo humano, aos transportes e às artes da guerra e também, às artes do governo das nações.
A nossa tradição greco-romana- judaico-cristã permitiu-nos desenvolver conceitos como os dos direitos das pessoas enquanto tal, o da limitação dos poderes de quem manda, o da representação popular perante o poder do soberano, o do respeito pelo direito internacional e das regras que regem as relações entre as nações, entre muitos outros.
Armados institucionalmente da melhor ciência e tecnologia da sua época, do respeito pelas leis, pelas instituições e pelos cidadãos, colonizamos o mundo ao qual levamos todo um novo sistema de regras e de leis, de princípios e de técnicas, que nos propulsavam muito para além de tudo o resto.
Hoje, estamos perante o refluxo: há quem diga que a excepção europeia está a acabar, e que o mundo está de regresso aos pilares naturais. Convém não esquecer que antes do século XIX a India e a China eram as maiores potencias económica do mundo…
A demografia europeia encolheu e está em regressão acelerada. Aquelas aldeias de onde no século XIX e XX saiam milhões de emigrantes, estão hoje vazias ou povoadas por velhos.
O resto do mundo está a apanhar-nos, ou até a ultrapassar-nos em matéria de ciência e tecnologia e os princípios que tínhamos como sacrossantos estão hoje em crise de identidade. Já não somos o Tiranossaurus-Rex do mundo e somos cada vez mais um pacífico herbívoro à mercê dos predadores.
Entretanto, o excesso demográfico, passou para «o lado de lá» e é a nossa vez de sermos invadidos por demografias de outras geografias.
Estas mudanças estruturais do mundo que se estão a dar debaixo dos nossos olhos e sem que pareçamos vê-las, como a rã que é metida numa panela de água fria que vai aquecendo até ferver e que só se dá conta que está a morrer cozida quando é tarde de mais, não têm tido muita influência na forma como nos organizamos como país.
Continuamos a debater-nos com os mesmos velhos dilemas e problemas com que nos debatemos há mais de cinquenta anos, com os mesmos muros e obstáculos que nos vedam o progresso, com pequenos detalhes cuja alteração é sempre inconstitucional, em vez de olharmos determinadamente e com coragem para o futuro.
Eu sei que não é fácil mudar e que as reformas de fundo, sobretudo as mais necessárias, são extremamente difíceis e impopulares, mas se queremos ter um futuro e um futuro para os nossos filhos e netos, era bom que olhássemos com atenção para o mundo que nos rodeia e que tirássemos daí as devidas consequências.





