
População de Pedrógão Grande voltou a sentir o medo das chamas
Oito anos após os grandes incêndios de Pedrógão Grande, que provocaram a morte a 66 pessoas e destruíram meio milhar de casas, a população voltou a temer o pior e a reviver o terror das chamas. Dois incêndios deflagraram ao início da tarde de sábado, levando ao corte do Itinerário Complementar (IC) 8, e da Nacional 2, Estrada Nacional n.º 350 (EN350), assim como várias estradas secundárias. A evolução das chamas acabou também por obrigar à evacuação de cinco aldeias daquele concelho do norte do distrito, por precaução.
O alerta para o primeiro incêndio foi dado pelas 14h27, em São Vicente, na freguesia de Pedrógão Grande e o IC8 foi cortado por volta das 14h50, entre Pedrógão Grande e Pedrógão Pequeno, altura em que no terreno já estavam mais de 200 operacionais e vários meios aéreos.
O segundo incêndio, no mesmo concelho de Pedrógão Grande, na freguesia da Graça, terá deflagrado pelas 15h21.
Por volta das 17h00 de sábado, os dois fogos que estavam a consumir floresta em Pedrógão Grande acabaram por chegar ao concelho vizinho da Sertã.
O comandante Sub-regional de Emergência e Proteção Civil de Leiria, Carlos Guerra, disse à Lusa que os dois incêndios nas freguesias de Pedrógão Grande e da Graça (do concelho de Pedrógão Grande), surgiram com a diferença de cerca de uma hora e cuja distância um do outro é muito curta, causaram projeções que atingiram o concelho da Sertã, já no distrito de Castelo Branco.
Segundo o comandante, as dificuldades no combate ao fogo faziam-se sentir devido ao vento, tendo o segundo incêndio, na Graça, obrigado a separar os meios no teatro de operações e a reposicioná-los.
Carlos Guerra revelou ainda terem sido desviados os meios do incêndio com início em Piódão, no concelho de Arganil, distrito de Coimbra, para Pedrógão Grande, e a projeção na Sertã levou também a que os meios do Comando sub-regional de Emergência e Proteção Civil da Beira Baixa fossem para o local [da projeção].
Algumas pessoas “ouviram estrondos”
Cerca de uma hora depois, as aldeias de Marroquil, Torneira, Romão, Agria e Sobreiro, que pertencem ao concelho de Pedrógão Grande, tiveram de ser evacuadas.
Frequentadora habitual da casa da avó materna em Pedrógão Grande, Susana Nunes, residente em Lisboa, contou à Lusa que hoje, poucos minutos antes de o segundo incêndio deflagrar, na zona da freguesia da Graça, algumas pessoas “ouviram estrondos”.
“Estava no Casal da Marinha, próximo da Graça, e ouvi um grande estrondo para os lados do rio. Pensei que fosse alguma bilha de gás a rebentar. Quando me dirigi para a minha casa, para colocar o sistema de rega automática a funcionar como proteção da casa, ouvi pequenos estrondos, uns a seguir aos outros. Pareciam tiros”, revelou.
Susana Nunes acrescentou que logo a seguir ao barulho escutado, ao olhar para a zona dos Cabeços, viu “pequenas fumarolas na mata, espaçadas cerca de 150 metros”.
“Fiquei com a sensação de que poderiam ser engenhos colocados no lugar. Há cerca de uma semana, deflagrou um incêndio pelas 04h00, que não tomou proporções maiores porque a minha vizinha chamou de imediato os bombeiros. É mais uma tentativa de fogo posto”, alvitrou.
Pelas 23h00 de sábado, os dois incêndios estavam a ser combatidos como tratando-se de “um só”, devido à sua proximidade.
O segundo comandante sub-regional de Emergência e Proteção Civil, Ricardo Costa, adiantou à agência Lusa que os incêndios que deflagravam junto às localidades se encontravam àquela altura em rescaldo, estando os trabalhos a incidir numa “frente extensa em direção ao rio Zêzere”.
As chamas que começaram durante a tarde de sábado em São Vicente, na freguesia de Pedrógão Grande, pelas 22h40 mobilizavam 922 operacionais e 292 veículos, agrupando os meios humanos e terrestres do sinistro que deflagrou na Graça.
Situação normalizada na madrugada de domingo
Na madrugada de domingo, os incêndios continuavam a ser combatidos por mais de 800 operacionais, apoiados por 270 meios terrestres, com os dois incêndios concentrados numa só frente.
Àquela altura, a GNR afirmou que o pior já tinha passado, tendo o Itinerário Complementar n.º 8 (IC8) 8 e a Estrada Nacional n.º 2 (EN2) sido reabertos, o primeiro às 23h23 e a segunda cerca de duas horas antes.
A mesma fonte acrescentou à Lusa que as aldeias de Marroquil, Torneira, Romão, Agria e Sobreiro já se encontravam “livres de perigo”, pelo que as respetivas populações, que tinham sido retiradas para a Derreada Cimeira, poderiam regressar algumas horas depois.
O incêndio em Pedrógão Grande encontrava-se na manhã de domingo em fase de resolução, tendo sido reabertas ao trânsito todas as vias afetadas pelo incêndio, incluindo a Estrada Nacional n.º 350 (EN350) entre o nó do Outão e Pedrógão Grande.
Esta estrada era a que tinha ficado condicionada no sábado à noite, depois da reabertura do Itinerário Complementar nº 8 (IC8) e a EN2.
Máquinas de rasto e meios aéreos ajudam a garantir consolidação
Várias máquinas de rasto e meios aéreos estavam, na manhã de domingo, a apoiar os operacionais no terreno para garantir a consolidação dos dois incêndios de Pedrógão Grande.
O segundo comandante sub-regional de Emergência e Proteção Civil de Leiria, Ricardo Costa, disse à Lusa que o fogo que deflagrou na freguesia de Pedrógão Grande “tem uma série de escarpas de difícil acesso, que nem permite a meios apeados chegar”.
O segundo comandante sub-regional de Emergência e Proteção Civil de Leiria admitiu, na manhã de domingo, que a situação estava controlada, alertando para o período de maior calor, da parte da tarde.
O presidente da Câmara de Pedrógão Grande, António Lopes, disse à Lusa que está a ser realizado o levantamento de todos os estragos e de possíveis primeiras habitações destruídas para garantir o acompanhamento da ação social. Às 11h00 de ontem, o autarca desconhecia qualquer situação de desalojados.
A página da internet da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil referia, às 19h15 de ontem, que estavam nas operações de conclusão do incêndio de Pedrógão Grande 471 operacionais, 145 viaturas e três meios aéreos.
Os incêndios que deflagraram em 17 junho de 2017 em Pedrógão Grande e que alastraram a concelhos vizinhos provocaram a morte de 66 pessoas, além de ferimentos a 253 populares, sete dos quais graves. Os fogos destruíram cerca de meio milhar de casas e 50 empresas.







