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A tragédia do elevador da Glória

Setembro 9, 2025 . 17:30
Opinião: “O Estado português já demonstrou ao longo dos anos a sua incompetência de gestão e não vejo nenhuma razão que lhe seja adicionada a responsabilidade pelos transportes, para além da necessária função do regulador independente”.

Tal como aconteceu em 2017, com os incêndios em Pedrogão Grande, o País volta a estar em choque como resultado da perda de vidas humanas por razões difíceis de explicar e de compreender.

Mais uma vez é o Estado, quer dizer o governo, que tem de dar explicações, na medida que a empresa responsável pelo transporte daqueles passageiros, a Carris, é propriedade da autarquia de Lisboa, sendo essa empresa pública que tem de explicar o sucedido.

Por isso é desde já estranho que o presidente da Carris tenha reagido apressadamente para dizer que os sistemas de manutenção estavam todos em dia, porque isso não invalida a sua responsabilidade e a responsabilidade da empresa.

A tragédia aconteceu e com manutenção ou sem ela, a segurança devida aos passageiros falhou e isso é da responsabilidade directa do presidente da empresa.

Como dirigente de empresas e como empresário, nunca tive dúvidas sobre a minha responsabilidade por qualquer acidente e sempre que iniciei a minha actividade em qualquer empresa a primeira medida foi sempre a da verificação de todas as condições de segurança.

Recordo, por exemplo, que quando adquirimos a empresa de moldes AHA, como resultado da verificação das condições de segurança em toda a empresa, foi decidido de imediato parar a actividade dos fornos de tratamentos térmicos, para mudar o tanque de combustível que não cumpria as regras de segurança.

Poderia dar outros exemplos, mas este chega.

Talvez por isso, na minha longa vida de dirigente só fui responsável por um acidente grave de um trabalhador que perdeu uma vista por não ter colocado os óculos, de uso obrigatório naquelas condições, trabalhador que, apesar disso, foi compensado e treinado para desenhador, função que passou a exercer a fim de reduzir o perigo de perder a segunda vista.

Nas questões de segurança não pode haver confusões e estranho o silêncio do ministro das Infraestruturas devido ao modelo de subcontratação da manutenção usado na Carris, que pessoalmente nunca usaria em nenhuma empresa pública naquelas circunstâncias.

Ou seja, uma empresa como a Carris tem de ser totalmente responsável pelas suas decisões e entregar a manutenção de algo tão complexo a uma pequena empresa cujo capital, necessariamente pequeno, não lhe permite pagar potenciais prejuízos, é um erro grave.

Mas pior, uma pequena empresa que muda de funções e de objectivos técnicos de acordo com os contractos obtidos, mais ou menos aleatórios e de duração incerta, não pode ter a memória necessária da organização em que presta os serviços.

Estou quase certo de que foi isso que aconteceu neste caso.

Espera-se que sejam conhecidos os resultados das investigações em curso, mas um primeiro resultado parece-me evidente. Das duas uma, ou os elevadores da Glória não possuem um sistema de travagem autónomo ou este não funcionou. Se, como me dizem, o sistema existente é o mesmo, ou semelhante, ao dos carros eléctricos, sistema manuseado manualmente, trata-se de um sistema criminosamente desadequado neste caso.

Sobre os transportes em Portugal, urbanos, rodoviários e ferroviários, a minha opinião é simples: devem ser privados e com os capitais adequados, sendo os seus dirigentes responsáveis pela qualidade da manutenção.

No caso de serem empresas públicas, a manutenção não deve ser subcontratada em caso algum para evitar o conhecido sistema de passa culpas dos serviços públicos.

Acresce, que o Estado português já demostrou ao longo dos anos a sua incompetência de gestão e não vejo nenhuma razão que lhe seja adicionada a responsabilidade pelos transportes, para além da necessária função do regulador independente.

Setembro 9, 2025 . 17:30

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