Ferrovia - Uma traição a Portugal
Aparentemente o actual governo da AD já admite, pressionado pela Espanha, reavaliar a questão da bitola na ligação ferroviária a Madrid, ou seja, os espanhóis aproveitaram o facto dos governos portugueses nada terem feito para cumprir os acordos da Figueira da Foz, para reorientar os apoios da União Europeia para o seu corredor Mediterrânico e só agora chegou o tempo de servir a região da Andaluzia para, finalmente, chamarem a atenção de Portugal para o facto de que a bitola de ligação entre os dois países será a europeia e não outra coisa. Só o fizeram agora e nunca se preocuparam com a acusação dos governos do PS “de que o governo espanhol não quer fazer a ligação a Portugal e se nós usássemos a bitola europeia chegaríamos à fronteira e não teríamos ligação”. Ou seja, durante todos estes anos, os governos espanhóis deixaram os governos do PS a falar sozinhos, para agora “recomendar” a ligação em bitola europeia, mas com um pequeno problema: Portugal pagou quase duzentos milhões de euros pelo projecto ELOS de bitola europeia para a linha do Poceirão ao Caia, projecto que António Costa atirou ao lixo afim de optar pela bitola ibérica, com o custo de largas centenas de milhões de euros e sem financiamento europeu. Agora, como sempre defendemos, terão de reconhecer o erro e mudar a bitola para a norma europeia. Total incompetência dos governos do PS e do actual ministro Pinto Luz, incompetência que temos denunciado ao longo dos últimos dez anos, o que revela também a incompetência da gestão da empesa IP, só possível devido aos interesses pouco claros dos governos do PS e do actual governo da AD.
Mas mostra também como através da geringonça o PCP e o Bloco de Esquerda manobraram o Partido Socialista, levando-o a negar a economia de mercado e a subscrever o protecionismo mais radical e revela o evidente funcionamento não democrático do País, porque os restantes partidos na Assembleia da República foram sempre, por acção e por inacção, parte do problema e não da solução. A nacionalização da TAP pertenceu ao mesmo pacote e tudo isso a pagar pelos portugueses, apenas para permitir que António Costa chegasse a primeiro-ministro.
Talvez que neste contexto valha a pena recordar os argumentos do então ministro Pedro Nuno Santos a favor da opção pela bitola ibérica:
1- “Afastar as abordagens desenfreadas que são sempre possíveis no contexto da liberalização.”
2- “Parte da concorrência é afastada à partida por haver uma protecção natural à bitola ibérica;”
3- “O que faz sentido é ampliar a estratégia que temos em desenvolvimento e ver se podemos tornar mais eficientes as ligações internacionais em parcerias com a RENFE.”
Que o PS e Pedro Nuno Santos tenham pensado e optado pela bitola ibérica com base nestas três razões herdadas do chamado marxismo-leninismo e no contexto das negociações da geringonça com o PCP e o Bloco, é obviamente pouco sério. Todavia que um governo do PSD e um ministro das Infraestruturas, mesmo ignorante, o façam agora é algo que ultrapassa o suportável. Porque condenar a liberalização dos mercados e defender a fuga à concorrência, em contramão com toda a filosofia política da União Europeia é algo do outro mundo. Mas o pior reside na proposta de negociar com a rede ferroviária espanhola a exportação das mercadorias portugueses para a Europa, o que representa um caso simples de traição ao interesse nacional e a favor de um país estrangeiro.
Foi por ter a consciência plena de todo este processo, que há três anos enviei uma carta à Procuradoria-Geral da República a acusar o ex-primeiro-ministro António Costa e o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa de traição.
Ponto final: a União Europeia acaba de aprovar o Regulamento (EU)2024/1679 da ligação Madrid Lisboa em bitola europeia, com sinalização ERTMS e eletrificação europeia. Estou agora curioso de saber a posição do governo da AD e, já agora, do PS. Provavelmente metem a viola no saco e os portugueses que paguem a conta.





