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O Golpe de Sidónio Pais em dezembro de 1917

Dezembro 5, 2025 . 17:30
Opinião: "O atentado refletiu o profundo descontentamento de parte da sociedade portuguesa perante o carácter autoritário do regime. Com apenas 46 anos, Sidónio deixava um legado controverso: para uns, o restaurador da ordem; para outros, o símbolo da derrocada das esperanças democráticas da República".

A madrugada de 5 de dezembro de 1917, há 108 anos, marcou um dos episódios mais decisivos da Primeira República Portuguesa. Nesse dia, um contingente de cerca de duzentos militares, liderados pelo ex-embaixador de Portugal em Berlim, Sidónio Pais, sublevou-se contra o governo constitucional presidido por Afonso Costa, chefe do 14.º governo republicano. A revolta, que duraria dois dias de confrontos, inaugurou um novo ciclo político, breve, mas marcante, que a historiografia viria a designar por “República Nova”.
Sidónio Pais, nascido em Caminha a 1 de maio de 1872, era uma figura invulgar na vida pública portuguesa. Militar de formação, matemático e professor de Cálculo Diferencial e Integral na Universidade de Coimbra, cedo combinou carreira académica com intensa atividade política. Ocupou cargos de grande relevo: Ministro das Finanças, Ministro dos Negócios Estrangeiros e Embaixador em Berlim, antes de ascender ao posto de Presidente da República. A sua trajetória revela uma capacidade rara de transitar entre os mundos técnico, diplomático e militar numa época especialmente turbulenta.
O golpe de dezembro de 1917 teve impacto imediato. A demissão de Afonso Costa, pressionado pela insurreição, pôs termo a mais um dos governos instáveis que caracterizaram os anos republicanos. Entre 1910 e 1917, sucederam-se mais de uma dezena de executivos, sinal de uma crise estrutural de representação e de uma crescente desconfiança popular. A ação de Sidónio, independentemente das leituras posteriores, expôs esse desgaste profundo: o afastamento entre o regime e os cidadãos era evidente, e muitos viram no golpe uma tentativa de restaurar ordem e autoridade num país fragilizado pela guerra (Primeira Grande Guerra; Portugal lutava em três frentes: Angola, Moçambique e Flandres francesa) e pela instabilidade interna.
Nos dias que se seguiram à revolta, o poder foi brevemente exercido por uma Junta Militar Revolucionária, mas rapidamente Sidónio assumiu as rédeas do governo. A sua liderança imprimiu um carácter novo ao sistema político português. Construindo uma presidência forte, centralizadora, quase carismática, Sidónio acumulou os cargos de Presidente da República e Primeiro-Ministro, esvaziando praticamente o Parlamento de qualquer papel relevante. Esta forma de governação, personalista, autoritária e assente numa relação direta com o eleitorado e com setores do Exército, consagrou o chamado “sidonismo”. A experiência, embora curta, representou a primeira tentativa explícita de instaurar, no contexto republicano, um regime de tipo ditatorial.
A sua morte, porém, foi tão súbita quanto a sua ascensão política. A 14 de dezembro de 1918, pouco mais de um ano após o golpe, Sidónio Pais foi assassinado na Estação do Rossio, em Lisboa, vítima de um ataque levado a cabo por um civil.
O atentado refletiu o profundo descontentamento de parte da sociedade portuguesa perante o carácter autoritário do regime. Com apenas 46 anos, Sidónio deixava um legado controverso: para uns, o restaurador da ordem; para outros, o símbolo da derrocada das esperanças democráticas da República.
Em 1966, já no Estado Novo, os restos mortais de Sidónio, bem como o de outras personalidades sepultadas na antiga sala do Capítulo do Mosteiro dos Jerónimos, foram trasladados para o Panteão Nacional, coincidindo com a inauguração da Igreja de Santa Engrácia. Assim, a figura que dividira opiniões em vida continuou a suscitar debate na memória histórica portuguesa, lembrando que o golpe de 1917 foi não apenas um episódio militar, mas o reflexo de uma nação em busca de estabilidade.

Dezembro 5, 2025 . 17:30

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