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“O mundo é um lugar menos solitário quando fazemos abraçoterapia coletiva entre mães”

Conhecida pelo humor afiado e pela forma irreverente como aborda temas mais sensíveis, Bumba na Fofinha - alter ego de Mariana Cabral - estará em Leiria até amanhã para apresentar ‘Sombra’, o seu solo de stand-up. Leia a entrevista completa.

Como descreve a essência do espetáculo ‘Sombra’ a quem ainda não sabe ao certo do que se trata?

‘Sombra’ inspirou-se no conceito de um psicólogo famoso chamado Carl Jung que define a sombra como o lado de nós que mais queremos esconder, os desejos reprimidos, as pulsões que nos envergonham e tudo quanto o nosso ego quer recalcar para manter uma imagem social aceitável. O objetivo deste espetáculo é fazer exatamente o contrário: deixar toda essa sombra a nu, rindo-nos dela.

O espetáculo ‘Sombra’ explora, com humor e confissão, o lado “sombrio” das relações da maternidade, com novas experiências e traumas adicionados na versão 2.0. O que motivou este regresso do seu solo? O que a fez sentir que era o momento certo para voltar?

Veio da vontade de voltar aos palcos e de ter novas coisas para dizer, novas vivências, novos traumas, uma nova criança no bucho e a total e absoluta impreparação para essa nova fase da vida e para todos os aspetos de ser adulta, no geral.

Em que momento percebeu que estes temas, considerados por vezes sensíveis na sociedade, davam material para um espetáculo de humor?

A resposta está na pergunta. É justamente por serem sensíveis na sociedade que têm cabimento no espaço para os dinamitar: um palco de comédia. Quando nos rimos deles, eles tornam-se mais inofensivos, e é um privilégio ver isso acontecer.

A maternidade é muitas vezes romantizada. A Bumba na Fofinha já é mãe de dois filhos. Sentiu necessidade de mostrar uma perspetiva mais crua e real sobre a sua experiência?

Sim, acima de tudo senti vontade de dizer em voz alta o que muitas de nós pensamos mas achamos que vamos ser julgadas se partilharmos. O mundo é um lugar menos assustador e solitário quando fazemos esta espécie de abraçoterapia coletiva entre mães, seja na comédia ou nos grupos de amigas.

Que tabu procura ‘desmontar’ com este novo espetáculo e qual a principal mensagem que quer passar ao público?

A ideia não é exatamente desmontar tabus, mas sim tentar fazer-nos rir do absurdo que é eles existirem. Falo muito de papéis de género, do facto de nem sempre gostarmos de ser mães, do facto de quase todos termos uma família relativamente disfuncional - coisas que invariavelmente descobrimos que são muito mais universais do que julgávamos.

Podemos chamar ao ‘Sombra’ um momento de terapia e até de aprendizagem?

Aprendizagem espero que não, porque se aprende muito pouco comigo - desaconselho até. Mas se for um momento de riso com o seu quê de catarse, já fico extremamente feliz.

‘Sombra’ também nasceu da vontade de Bumba na Fofinha dizer em voz alta o que muitas mães pensam, mas raramente partilham por receio de serem julgadas

O que espera que o público de Leiria leve deste espetáculo?

O público de Leiria, e digo isto com total honestidade, é de uma enorme sofisticação no humor. Leiria é uma cidade a que qualquer artista adora vir, É dos meus pontos altos da minha tour, sempre, e acho que devem estar extremamente orgulhosos do ecossistema cultural que criaram. Para mim é um verdadeiro privilégio poder fazer cá uma temporada, só tenho a agradecer por isso.

Este espetáculo encerra algum ciclo? É uma nova fase na sua carreira?

Quando se encerra uma ‘tour’ há sempre uma fase de luto, por estas piadas que já não veem mais a luz do dia, e por um lugar de fala que daqui a uns meses estará obsoleto. Mas a boa notícia é que a vida continua e haverá novas coisas para dizer. Se entretanto não falecer, claro.

Sendo uma criadora que começou no digital, o que ainda a surpreende no contacto ao vivo com o público?

Surpreende-me sempre ver as caras felizes à minha frente. No digital acabam por ser só números, likes, alcance, etc, e aqui é um frente-a-frente individual. Cada pessoa que ali tenho à frente escolheu investir o seu tempo e dinheiro para comprar um bilhete, o que para mim é uma total declaração de amor. E individualizar cada uma dessas declarações numa cara é uma das minhas coisas preferidas no stand-up, e é por isso que procuro devolver dando o meu melhor.|

Dezembro 10, 2025 . 08:30

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