Presidenciais - algumas questões simples
Aproxima-se a eleição para a Presidência da República e já vão avançados os debates entre os diversos candidatos, com os habituais comentaristas dos diferentes canais de televisão a dizer tudo o que lhes passa pela cabeça e o seu contrário. Infelizmente, digo-o, porque a próxima eleição presidencial reveste-se da maior importância, seja por razões da política interna, em que os crescimentos dos sectores políticos da direita ganharam um ascendente não desejável, nomeadamente porque existe o perigo de uma revisão constitucional que desvirtue ainda mais o nosso sistema democrático. Mas também por razões externas, com perigos conhecidos, nomeadamente a existência de uma guerra na Europa e a ameaça de conflitos geopolíticos em todo o mundo e com resultados imprevisíveis.
Neste artigo limito-me a analisar os temas mais caseiros, em que é preocupante a incapacidade dos candidatos para apresentarem uma visão estratégica com visto ao futuro do País e porque gastam o tempo a discutir, nem sempre de forma civilizada, os pequenos acidentes da política nacional. E fugindo a tratar questões que nem por serem óbvias deixam de ser importantes. Vejamos algumas:
Revisão das leis eleitorais – Parece impossível que candidatos ao mais alto cargo da Nação, não sintam a necessidade de democratizar o nosso regime político de forma aos cidadãos eleitores escolherem os seus representantes na Assembleia da República, em vez dos representantes do povo serem escolhidos, como agora acontece, pelas direcções partidárias, com o resultado conhecido da perda de qualidade – poderia acrescentar da seriedade – dos eleitos. Causa também da permanente chicana partidária em que o regime se degrada e se atrasa em relação aos países nossos concorrentes do Leste Europeu.
Logística e política de Defesa – É extraordinário que os candidatos debatam até há exaustão a questão orçamental para a Defesa e ninguém mencione que o País se prepara para gastar cerca de dez mil milhões de euros numa ferrovia de bitola ibérica com objectivos contrários aos da União Europeia, objectivos que se baseiam na interoperabilidade de todo o sistema, com reflexos óbvios de Portugal se tornar uma ilha ferroviária na Europa, com a impossibilidade logística de participação no sistema de defesa europeu, além da perda do financiamento de Bruxelas. Também o prejuízo para a competitividade das exportações portuguesas.
Exportações - Um país pequeno não pode basear a sua economia no mercado interno como acontece em Portugal, razão das exportações serem de apenas 50% do PIB, quando nos outros países da União Europeia da nossa dimensão as exportações variam entre 70% e os 105% do PIB na Irlanda. Tema que não é minimamente debatido nesta campanha.
Economia – Portugal tem uma economia anémica há um quarto de século. A razão é simples: excesso de pequenas empresas, principalmente comerciais, que sobrevivem quase sempre em regime de excessiva concorrência, baixa produtividade e baixos salários, frequentemente o baixo salário dos próprios empresários. Razão de a cada ano morrerem cerca de 70.000 empresas e nascerem outras tantas, num processo de destruição muito pouco criativa.
Industrialização – É um sector essencial para permitir absorver a grande quantidade de trabalhadores com baixas qualificações, porque a indústria é um sector da economia onde o trabalho é mais produtivo, mesmo com trabalhadores de baixas qualificações, como é o nosso caso, dado as tarefas serem geralmente repetitivas e de rápida formação. O que geralmente permite melhores salários, por força das tecnologias utilizadas. Porque enquanto nas pequenas empresas comerciais o que se vende é pouco mais do que o custo do trabalho, na indústria é vendido o trabalho mais a produtividade alcançada por força do capital investido em equipamentos.
Que tudo isto passe ao lado de dezenas de debates entre os candidatos à presidência, como passa ao lado dos governos, diz muita da impreparação da generalidade da classe política portuguesa e mais do que justifica o nível de pobreza existente em Portugal. Acredito que basta compreender estas poucas verdades para que exista uma mudança no debate político e para que a economia cresça e a pobreza seja reduzida, ou mesmo eliminada.





