Valha-nos Ronaldo, que não o governo
Está a terminar o ano de 2025 e inicia-se agora o ano de 2026 sob um manto de dúvidas sobre o futuro de Portugal e dos portugueses. As últimas notícias de que a economia portuguesa foi a melhor da União Europeia este ano parece indicar um futuro risonho e o governo da AD, como os governos anteriores, não se pouca a esforços para nos convencer disso mesmo. Puro engano, porque há vinte e cinco anos que Portugal não sai do mesmo sítio.
O primeiro indicativo é a dimensão da pobreza, que resulta do envelhecimento dos portugueses, dos baixos salários da maioria daqueles que trabalham, da dimensão da dívida que os governos acumularam e dos erros da economia. Sem esquecer as baixas qualificações de uma grande parte dos trabalhadores portugueses e de um modelo educativo que está longe de alterar essa realidade, porque a ausência de creches e de instituições do pré-escolar de qualidade, com bons educadores, boa alimentação e transporte, não permitem o desejado salto em frente.
Em 2003, escrevi com o Professor Veiga Simão uma síntese estratégica para o País, que incluía os seguintes parágrafos: “O novo modelo económico (no contexto da União Europeia e da globalização) deve ter um enquadramento flexível e privilegiar o desenvolvimento e modernização dos sectores produtores de bens transacionáveis (produtos e serviços susceptíveis de concorrência nos mercados interno e externo), desejáveis nos mercados externos em virtude das suas características de inovação, tecnologia e valor”. A seguir escrevemos o essencial; “O factor humano qualificado, culto e motivado, a produção científica e tecnológica organizada e o acesso rápido, fácil e barato ao mundo através das telecomunicações, de sistemas de informação e transporte são os recursos essenciais.”
Escusado será dizer que os governos até ao presente nunca acharam relevante definir uma estratégia e navegamos à vista há mais vinte anos e até hoje. O que não evita que todos os governos definam cenários radiosos para o futuro e procurem publicamente desconhecer os atrasos do País relativamente aos países mais desenvolvidos da União Europeia e, nos últimos anos, também em relação aos países da antiga Cortina de Ferro que entraram na União Europeia muito depois de nós. Assim aconteceu esta semana na mensagem de Natal do primeiro-ministro, que pintou um cenário idílico do País e evitou falar de todas as dificuldades existentes: pobreza; serviços hospitalares fechados; crescimento económico anémico desde a um quarto de século; exportações medíocres em relação aos outros países europeus da nossa dimensão; baixa produtividade; excesso de pequenas empresas comerciais e número insuficiente de grandes empresas industriais; baixas qualificações de uma parte importante da mão de obra e fraco investimento estrangeiro na indústria.
Nada disto preocupa os governos dos últimos trinta anos ao ponto de planearmos uma ferrovia caseira, que não permite a saída dos nossos comboios e das nossas mercadorias do território nacional, ou a entrada em Portugal dos comboios internacionais, com o argumento de que isso evita a concorrência externa. Para isso chegámos ao ponto de usar parcerias público/privadas e endividar o País ainda mais em vez de usar o apoio financeiro da União Europeia para a maioria do investimento como acontece em Espanha e nos países bálticos, estes financiados a 85%. Ou onde está “o factor humano, culto e motivado e o acesso fácil, rápido e barato ao mundo”, que enunciamos no nosso texto há vinte anos?
O primeiro-ministro na sua alocução de Natal passou aos portugueses as responsabilidades de desenvolvimento do País evocando Ronaldo e desconhecendo que a primeira e maior responsabilidade, nas empresas como nos governos, reside nos seus dirigentes. Santa ignorância.





