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A Banda Sonora de Cada Dia

Janeiro 1, 2026 . 17:30
Opinião: "O que a ciência nos tem mostrado, é que a música pode funcionar como um verdadeiro instrumento de autorregulação emocional, ajudando-nos a reduzir estados como a ansiedade, a angústia, a tristeza ou a solidão, ou a potenciar sensações de bem-estar, pelas verdadeiras injeções de dopamina com que nos presenteia".

Em julho, a minha vida mudou. Passei a trabalhar “à porta de casa”, deixando de passar cerca de 1h30 do meu dia ao volante, entre viagens pendulares.
Não tenho saudades nenhumas dos olhos piscos de sono, com o sol baixo pela frente, dos litros de gasóleo gastos todos os meses, nem dos quilómetros lentos atrás de um qualquer camião, em zona de ultrapassagem proibida. No entanto, há uma rotina de 16 anos da qual sinto falta: as horas a sós comigo mesma e com a minha música.
Ao longo do tempo, fui criando pastas musicais para cada estado de espírito; agrupei canções com emoções em anexo, que nem frascos de “audiogésicos” certeiros (roubando a expressão a Ana Markl), com rótulos à medida do humor: “Dias Não”, “Empodera aí”, “S.O.S. Acordar”, “Se eu corresse”… e por aí fora. Naqueles tempos, a música foi muito mais do que mera banda sonora para os meus dias. Foi companhia de viagem, despertador, confidente, bebida energética, pista de dança, abraço e terapia.
A música é, efetivamente, poderosa.
Em alguns momentos, aconchega-nos como uma manta de lã, ajudando-nos a deixar o cansaço ir embora. Noutros, valida emoções ao compasso do coração, conduzindo-nos à catarse, onde cada verso parece ter sido escrito especialmente para nós. E quem nunca treinou ou trabalhou ao som “daquele álbum”, que alimenta o corpo de energia, que dá ânimo, coragem, ou que nos empurra para o passo seguinte?
Também se costuma dizer que “não há festa sem música”, onde se marca o ritmo da diversão ou, simplesmente, se cria um ambiente especial. E ainda há a ‘música de elevador’, como se esta tivesse, por si só, poderes para abafar o desconforto do silêncio ou a irritação de uma espera.
A música pode, ainda, surgir enquanto arquivador/desbloqueador de memórias, ajudando-nos a mapear a linha da vida, qual marcador, post-it ou sinal de pontuação - quantos de nós não associam uma determinada música a uma pessoa, em particular, ou a uma circunstância específica, bastando os primeiros acordes para fazermos uma viagem no tempo?
O poder da música vai, assim, muito além da curiosidade cultural, do entretenimento ou do prazer que nos possa suscitar determinada sequência de ritmos e sons. O que a ciência nos tem mostrado, é que a música pode funcionar como um verdadeiro instrumento de autorregulação emocional, ajudando-nos a reduzir estados como a ansiedade, a angústia, a tristeza ou a solidão, ou a potenciar sensações de bem-estar, pelas verdadeiras injeções de dopamina com que nos presenteia.
A música “mexe mesmo connosco”: com o nosso córtex auditivo (que processa do som), com o sistema límbico (que desperta cada emoção), com os processos de memória no hipocampo, com o córtex pré-frontal (que intervém em competências tão variadas quanto a atenção, o planeamento ou a autorregulação). E isso é sinónimo de vida.
Volto assim, ao meu ponto de partida: sinto falta do tempo em que, mesmo tendo pouco tempo, tinha sempre tempo para a minha música. Confesso que, por vezes, estaciono o carro na garagem… e ali me deixo ficar por uns minutos. Só eu e a minha playlist… a viver um bocadinho.

Janeiro 1, 2026 . 17:30

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