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Opinião: Dia Mundial da Paz

Janeiro 3, 2026 . 10:00
Miguel Augusto Dias: "Num mundo instável, estes valores não pertencem ao passado. São, antes, âncoras para o futuro. A história demonstra que a paz exige coragem, visão e persistência".

O primeiro dia do ano é, desde 1967, consagrado ao Dia Mundial da Paz, uma efeméride instituída pela Santa Sé que, ao longo de décadas, se transformou num espaço simbólico de reflexão coletiva sobre a convivência entre os povos. Em 2026, porém, esta data surge marcada por uma inquietação difícil de contornar. O mundo vive novamente sob o signo da guerra, com conflitos armados em curso, tensões geopolíticas persistentes e um receio palpável quanto à possibilidade de alargamento desses confrontos, incluindo no espaço europeu.
A história recente mostra como a paz é frágil. Conflitos prolongados, disputas territoriais, ameaças híbridas e um clima global de desconfiança têm levado vários Estados a reforçar políticas de segurança e a preparar cenários de contingência. Mais do que alarmismo, trata-se de uma atitude de prudência, enraizada numa consciência histórica: a paz nunca é um dado adquirido, mas uma construção permanente, sujeita a ruturas quando a diplomacia falha e a força se impõe à razão.

Também em Portugal e no conjunto da Europa se sente essa apreensão. O continente que conheceu duas guerras mundiais no século XX sabe bem o preço humano, económico e moral da violência organizada. Sabe, igualmente, como conquistas civilizacionais podem rapidamente ser postas em causa em contextos de instabilidade prolongada. Ainda assim, o Dia Mundial da Paz não se esgota num exercício de enumeração de receios. Tradicionalmente, é também um convite à esperança, não ingénua, mas responsável.

A história portuguesa permite enquadrar essa esperança com algum realismo. Portugal tem privilegiado, ao longo das últimas décadas, uma política externa assente no multilateralismo, no respeito pelo direito internacional e na participação em missões de paz. Como recordou recentemente o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, o país não se envolve em cenários de guerra ofensiva, mas tem uma longa tradição de integração em forças internacionais de manutenção da paz. Esta posição não é circunstancial: resulta de uma opção estratégica e de uma memória histórica que valoriza a cooperação e a dissuasão defensiva.

O envolvimento de militares portugueses em missões na República Centro-Africana, sob a égide das Nações Unidas e da União Europeia, bem como a presença na Eslováquia e na Roménia no âmbito da NATO, ilustra essa escolha. Trata-se de uma atuação que procura prevenir a escalada dos conflitos, proteger populações civis e contribuir para a estabilidade regional. Qualquer eventual participação futura em cenários como o da Ucrânia, se enquadrada num tratado de paz ou num acordo de segurança internacionalmente reconhecido, inscrever-se-á nessa mesma lógica histórica.

Mas a paz não se constrói apenas com diplomacia e forças no terreno. A história ensina que ela depende, sobretudo, de instituições democráticas sólidas, de justiça social, de igualdade de direitos e de uma cultura política baseada no compromisso. Nesse sentido, o ano que agora começa possui um simbolismo acrescido. Evocam-se os 200 anos da Carta Constitucional de 1826, marco do constitucionalismo português, e os 50 anos da Constituição de 1976 e das primeiras eleições democráticas para o poder local. São referências que recordam que a paz interna, social e política, foi conquistada através da liberdade, da participação cívica e do respeito pela dignidade humana.

Num mundo instável, estes valores não pertencem ao passado. São, antes, âncoras para o futuro. A história demonstra que a paz exige coragem, visão e persistência.

Janeiro 3, 2026 . 10:00

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