Que Desperdício!
A semana passada deixei nesta coluna um conjunto de preocupações sobre o futuro de Portugal, que não diferem muito das preocupações que me fizeram ser há dez anos candidato na campanha eleitoral à Presidência da República, na tentativa de alertar os portugueses para algumas das questões que aqui enumerei. Passados dez anos, tenho a lamentar que todas essas questões tenham sido ignoradas, não apenas pelos governos, pelo Presidente da República e até agora pelos novos candidatos à Presidência da República. Temas como um sistema de saúde há anos totalmente desorganizado; um sistema escolar que perpetua a exclusão para a vida de muitos milhares de crianças; uma economia estruturalmente incapaz de pagar salários decentes; uma produtividade estagnada; exportações muito abaixo do nosso potencial nacional; excesso de pequenas empresas comerciais, cujo resultado é apenas o de manter as famílias mais pobres a tentar sobreviver; um Estado ao serviço da classe política no poder e que maltrata os cidadãos. A lista é muito mais longa, mas profundamente real.
Estamos agora a chegar ao início de mais uma campanha eleitoral para a Presidência da República e apenas o candidato António José Seguro nos dará alguma esperança de conhecer o verdadeiro estado do País e saber das muitas oportunidades que temos à nossa frente para planear o futuro com alguma qualidade. Todo o resto é a habitual lenga, lenga e a mais lamentável chicana política, ou o esgravatar nas maleitas passadas dos candidatos e a total ausência de conhecimento dos temas que enumerei antes. Chamo a atenção dos leitores de que a última vez que existiu verdadeiro planeamento em Portugal foi há mais de cinquenta anos, durante o consulado de Marcelo Caetano, por força dos então chamados tecnocratas, como João Salgueiro, Rogério Martins, Xavier Pintado, Pereira de Moura e João Cravinho entre muitos outros.
Agora, os candidatos à Presidência falam apenas das grandes generalidades e respondem a perguntas, não poucas vezes tolas, de alguns achadores de serviço nas televisões. Sobrevive a habitual ausência de ideias de quem não tem nenhuma estratégia coerente para estudar e resolver os reais problemas do País que afinal todos conhecemos. Infelizmente, entre todos, ninguém nos muitos debates já realizados fala da inexistência de uma síntese estratégia para a governação que seja conhecida, ou indique os seus principais objetivos para o futuro, consumindo-se quase todos nas miudezas dos programas que ninguém lê, ou acreditaria se lesse.
O século XXI português é um lamentável vazio, os governos sucedem-se cheios da vontade e da energia de Ronaldo, mas chutam pouco e mal e raramente marcam golos. Estou certo de que a esmagadora maioria desses políticos não teriam senão um futuro medíocre no sector privado. Nisso, excluo naturalmente os vários políticos que nas suas carreiras optaram por escritórios de advogados, por administrações de empresas do Estado e por fundações e empresas amigas dos governos – os vários poleiros da EDP ganham em número, mas a Mota Engil também não se porta nada mal.
Entretanto, há vários políticos portugueses que nos deixaram saudades no passado pelo conhecimento dos problemas do País e pela qualidade das suas decisões, nomeadamente políticos do PSD, mas que, por alguma razão, o primeiro-ministro Luís Montenegro não quer ouvir, num acto de desprezo incompreensível por quem poderia ainda dar algum sentido de orientação ao governo da AD. Por exemplo, alguns dos melhores ministros da Cavaco Silva continuam por aí a publicar textos que são uma pedrada no charco e uma crítica suave ao governo, mas sempre com a indicação das alternativas, sem que o PSD e o primeiro-ministro se deem ao trabalho de lhes dar a merecida atenção. Assim, muitas desses textos sobre a energia, o ambiente, a saúde, os investimentos na ferrovia e no aeroporto, ou sobre a habitação e as finanças públicas, são as soluções adequadas ao momento presente e o resultado de muitas experiências acumuladas e de muitas decisões reconhecidamente bem-sucedidas. Mais um enorme desperdício!





