
“Não aprendemos nada com o Leslie, nem com o apagão”
Os estragos provocados pela depressão Kristin voltaram a expor fragilidades graves na resposta às situações de emergência energética, particularmente na freguesia de Meirinhas, no concelho de Pombal.
O presidente da Junta de Freguesia, João Pimpão, não poupa críticas à atuação da E-Redes, acusando a empresa de falta de planeamento, de ausência de comunicação e de colocar em risco a economia local e nacional.
“Não aprendemos nada com o Leslie, nem com o apagão”, afirma João Pimpão, sublinhando que continua a não existir um plano prévio para responder a eventos meteorológicos extremos. Para o autarca, é “inadmissível e inaceitável” que a empresa responsável pela distribuição de energia não tenha mecanismos de prevenção definidos.
“Na análise de risco nacional não estão previstas tempestades nem tufões.
A E-Redes está-se a comportar como se não aprendesse lição nenhuma”, critica.
Apesar da gravidade da situação, o presidente da Junta afasta responsabilidades diretas do Governo, considerando que o problema reside na gestão das infraestruturas.
“A E-Redes tem de resolver. Tem de ter geradores nos parques empresariais, tem de ter geradores nos centros urbanos maiores”, defende.
“Não se admite como é que nós pagamos todos os meses, sem falhar, a nossa energia e depois, quando temos um caso destes, não aparecem geradores”, acrescentou.
João Pimpão considera que a E-Redes deveria assumir um papel mais ativo na proteção da comunidade.
“A E-Redes tem de assumir o papel de defesa civil da comunidade e perceber previamente o que é que vai falhar e arranjar maneiras de mitigar este rico”, afirma, acrescentando que, na sua opinião, “este monopólio é mau para a comunidade”. “A E-Redes não mitiga risco nenhum, só tenta resolver quando quer e lhe apetece”, reforça.
A falta de energia está a ter impactos diretos e severos na economia local, em particular no setor empresarial.
“Não há energia em Pombal e, sem energia, as empresas não têm como trabalhar”, alerta, defendendo a criação urgente de “um plano de ação para estas eventualidades”.
A ausência de informação é outro dos pontos criticados.
“A E-Redes não diz nada, ninguém nos diz nada. Os políticos estão a fazer o seu trabalho, mas isso são coisas técnicas e têm de ser as empresas que têm essa capacidade a resolver”, afirma, sugerindo inclusive soluções externas.
“Se não há geradores em Portugal, que vão a Espanha buscá-los.”
Recordando o impacto da tempestade Leslie, João Pimpão lembra que a resposta foi tardia.
“Quando foi o Leslie, passado 15 dias eles apareceram [os geradores]. Têm de aparecer já”, exige.
E questiona as declarações do Governo sobre a existência de meios: “O ministro disse que havia geradores suficientes? A E-Redes que os ponha a trabalhar.”
Os números avançados pelo autarca revelam a dimensão do problema. “Em 180 empresas nas Meirinhas, tenho 170 estão sem telhado e 180 sem energia.
São milhões de euros de prejuízo”, afirma, alertando para o impacto nacional: “Oitenta por cento da fileira cerâmica é pasta que sai das Meirinhas.
Nós estamos em risco de a fileira cerâmica em Portugal parar por falta de matéria-prima, porque não temos energia para meter as maiores empresas da indústria cerâmica a trabalhar.”
O presidente da Junta deixa ainda um apelo direto à empresa. “Espero que os senhores da E-Redes tenham a decência de perceber que não podem parar o país. A E-Redes não pode ser um peso morto sobre o país”, afirma, acrescentando que a situação era previsível: “Eles sabiam muito bem que isto ia acontecer. Tinham de ter os geradores prontos para, num prazo razoável e adequado, servir a população, o que não fizeram.”
No terreno, as consequências humanas e económicas acumulam-se.
“Os empresários têm chorado, há vidas destruídas, gente que ficou sem nada”, relata. Enquanto a energia não regressa e os apoios não chegam, Meirinhas permanece num cenário de incerteza, com prejuízos a aumentar e um setor estratégico da economia nacional em risco de paragem.








