
“Só conseguia pensar que ficava sem casa”
“Vou ficar sem casa”. Foi este o pensamento que ‘invadiu’ Odete Faustino na madrugada em que ouviu e sentiu a força do vento bater com violência em toda a estrutura da sua habitação, situada junto à marginal da Vieira de Leiria, no concelho da Marinha Grande.
Ainda com lágrimas nos olhos, Odete Faustino recorda à equipa de reportagem do Diário de Leiria as horas de maior aflição. Vive numa casa com rés do chão e primeiro andar e diz que, a cada rajada mais forte, o medo aumentava. “Só pensava: vamos ficar sem casa”.
Não era a primeira vez que enfrentava um episódio de mau tempo severo, mas garante que nunca com esta intensidade. “Uma vez vi isto acontecer, na tempestade Leslie, mas não foi tanto. Desta vez ficou tudo destruído”, relatou.
Os prejuízos são significativos. Parte do telhado terá de ser substituída na totalidade e já há infiltrações no interior da habitação.
“Já está a entrar água dentro de casa”, diz, acrescentando que uma janela foi arrancada e uma porta acabou por rebentar com a força do vento.
Durante a madrugada, ouviu estrondos como nunca tinha ouvido. “Ouvimos coisas que nunca ouvimos na vida.” Sem água, energia e internet durante vários períodos, a população da Vieira de Leiria vive dias difíceis, num território onde, em poucas horas, se perdeu investimento feito ao longo de uma vida.
O sentimento de perda e até de luto vivido por Odete Faustino repete-se noutros pontos da Praia da Vieira, onde a depressão Kristin atingiu em cheio restaurantes, lojas e as tradicionais barracas às riscas coloridas, conhecidas no verão pela venda de marisco. Em poucas horas, ruiu investimento feito ao longo de anos.
Dina Lopes, que trabalha na Marisqueira Flor do Lis, descreve um cenário de devastação, onde parte do telhado desapareceu, partiram-se os vidros das portas e das janelas. O restaurante não está em condições de voltar a reabrir tão depressa.
Também residente na Praia da Vieira, confessa nunca ter sentido tanto medo.
“Nunca tive tanto medo na minha vida. Foram dias de muita aflição (…) A Praia da Vieira está irreconhecível.”
Paulo Pires, responsável por um dos cafés e restaurantes da marginal, confirma a dimensão dos estragos.
O espaço não reúne condições para funcionar e os prejuízos poderão rondar os 50 mil euros. “Foi tudo muito rápido. É difícil de descrever. Este é o nosso ganha-pão”, afirma, sublinhando que a esperança passa agora por conseguir recuperar a tempo do verão.








