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Tempestade deixa Leiria “virada de pernas para o ar”

Mau tempo Leiria acordou na quarta-feira com uma cidade completamente destruída por rajadas de vento e chuva. O balanço provisório é devastador, quase indescritível e mortal.

O impacto é semelhante a uma bomba de destruição maciça dentro da cidade. As palavras são do presidente da Câmara Municipal de Leiria, Gonçalo Lopes, que na quarta-feira descrevia o cenário dantesco causado por rajadas de vento de quase 200 quilómetros por hora, que fustigaram a cidade do Lis e o restante concelho. Durante três horas, Leiria foi fustigada, abanada, violentada, abanada novamente. Sumido o som assustador do vento causado pela depressão Kristin, o balanço é devastador, quase indiscritível: três mortos, centenas de árvores arrancadas pela raiz e outras tantas cortadas a meio, milhares de cabos elétricos e de comunicações destruídos, viaturas a perder a conta danificadas pelos detritos que voaram, telhados arrancados, património histórico e cultural com perdas significativas, como o Santuário Nossa Senhora da Encarnação, construído em 1588 e que ficou sem telhado, isto sem contar com o caudal do rio Lis, que continua a subir e já atingiu cotas históricas.
É impossível andar por Leiria sem pisar detritos. Uma volta pelo centro da cidade durante meia hora é o suficiente para perceber a dimensão dos estragos. Vidros, telhas, raízes, cabos são autênticas armadilhas no chão, e não apenas para quem anda a pé, como para as viaturas, que têm de andar, nalguns locais, aos ziguezagues para escapar aos perigos que ainda existem na estrada.
Janelas que se partiram, ferros retorcidos nas varandas, sinais e estruturas de metal dobradas como papel, viaturas viradas ao contrário e gruas que com o vento caíram em cima de prédios.
Leiria é uma cidade em estado de sítio, uma zona de guerra que na manhã de quarta-feira despertou para uma das maiores batalhas da sua vida.
O avião, do Parque do Avião, um dos espaços mais icónicos da cidade desapareceu por debaixo das árvores de grande porte que acompanhavam o rio Lis há anos e que, parte delas, também sucumbiram ao vento.
A meio da manhã de quarta-feira, o Parque do Avião era uma autêntica romaria. Homens, mulheres, crianças e bebés de colo passavam pelo histórico avião, paravam e registavam no telemóvel um momento que quase parecia fúnebre. Os rostos incrédulos, corpos desalinhados, desorientados, sem perceber muito bem qual o caminho a seguir. Viaturas que entupiam as ruas, apesar dos constantes apelos das autoridades para ficar em casa.
Estabelecer contactos é quase impossível. Apenas em alguns pontos da cidade se consegue aceder a comunicações. Nos supermercados, por exemplo, pequenas multidões aglomeram-se, não apenas para comprar alimentos, os que restam nas prateleiras, como para ligar a familiares, procurar saber informações através das notícias e saber o que se passa no mundo.
Ontem, a meio da tarde, a água já corria nalgumas torneiras, com previsão do município de que o abastecimento pudesse ser regularizado na maioria das casas até ao final do dia de hoje.
O comércio está fechado. As fábricas a tentar perceber os danos causados pela tempestade. Todos os bairros, ruas e ruelas têm uma história para contar. Um pai que olha destroçado para a sua viatura que levou com placas de zinco em cima e percebe que a fábrica onde trabalha já não tem teto, uma profissional da comunicação social que viu a sala de estar e o sótão da sua casa destruídos e está a trabalhar e a prestar serviço público à população.
O presidente da Câmara, com voz embargada e olhos lacrimejantes, aponta para um ano duro, muito difícil de recuperação, mas assegura que Leiria está preparada para mais este rombo, depois de ter conseguido ultrapassar os incêndios, a tempestade Leslie e a pandemia.
Para já, o apelo é de ajuda, ao Governo, que ontem decretou o estado de calamidade, e à população, para se unir, auxiliar os que mais precisam, dar um teto para quem ficou sem ele, alimentos para quem esgotou a sua despensa, gás para quem tem refeições em casa mas precisa de as aquecer. Um abraço amigo e solidário para quem precisa de desabafar.
São ainda pedidos geradores, sobretudo para os lares da terceira idade, foi montado um centro de apoio nos Pousos para receber alimentos e lonas, e outro junto ao estádio para materiais.
À hora de fecho desta edição, Leiria voltava a entrar na escuridão, pelo segundo dia consecutivo, à espera que o amanhã traga consigo energia elétrica, água, comunicações e a esperança por dias melhores.

Janeiro 30, 2026 . 09:00

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