
“Quando olhei para cima e já não tinha telhado, caiu-me tudo”
A casa de Conceição Dinis e da sua família deixou de proteger quem sempre ali viveu. Foi o telhado da casa a ceder primeiro e acabou também destruído o telheiro em chapa que abrigava as viaturas, que sofreram igualmente danos.
“Foi a estrutura toda em chapa e todo o telhado de casa”, resumiu, apontando para cima, onde agora as lonas presas por tijolos substituem aquilo que durante mais de 40 anos protegeu a família.
Naquela casa de primeiro andar, em Regueira de Pontes, Leiria, residiam nove pessoas: Conceição Dinis, o marido, Armando Grácio e as três filhas, de 9, 11 e 15 anos, a mãe, a irmã e o sobrinho. Uma família inteira foi forçada a sair do que sempre foi o seu lar.
A madrugada em que tudo aconteceu ficou gravada na memória desta família. Por volta das três da manhã, o vento começou a ganhar força e o barulho das chapas tornou-se ensurdecedor. “Foi uma madrugada de terror, pânico. Ouvia-se um barulho estremecedor. Elas [filhas] acordavam, nós ligámos o ‘spotify’ com música aos altos berros para tentar abafar o som do vento. Tudo desabou nesta madrugada”, relatou Conceição Dinis à porta de casa, onde agora já não consegue entrar sem se molhar ou sem sentir o cheiro intenso a humidade.
Cada rajada de vento parecia invencível. O som era “tão forte” que ainda hoje ecoa. “Na noite a seguir não conseguia dormir. Todo o vento me faz ainda muita confusão, parece que relembro sempre aquela noite”, acrescentou.
Quando o vento começou a abrandar, já perto das cinco da manhã, Conceição abriu a janela. Primeiro viu o telheiro destruído. Fechou, respirou fundo e voltou a abrir. Só então reparou no que faltava. “Quando olhei para cima e vi que já não tinha telhado, caiu-me tudo. A primeira pergunta foi: o que vamos fazer agora?”, relatou.
Nas duas noites seguintes, a família ainda tentou permanecer na habitação, mas a chuva começou a entrar sem controlo. “Tem sido muito frustrante, porque cada vez que vimos cá há mais uma coisa danificada. A água está a correr como se tivesse a chover lá fora. É mesmo devastador saber que os nossos bens estão todos estragados com a humidade”, descreveu.
Na noite que se seguiu à tempestade, subiu ao telhado com a ajuda de vizinhos para colocar lonas e plásticos, presos com tijolos, numa tentativa de travar as infiltrações. “Não há lonas suficientes para tentar evitar a água e as infiltrações”, lamentou.
Família apela por ajuda
Perante a falta de condições de habitabilidade, as nove pessoas acabaram por ser realojadas numa casa cedida por emigrantes, onde poderão permanecer até que o problema seja resolvido. “Não sabemos quando será possível voltar”, admitiu Conceição Dinis.
A adaptação tem sido particularmente difícil para as crianças, habituadas ao seu espaço, e para a mãe, que tem dificuldades motoras. “Tem sido difícil. Não estamos no que é nosso, mas é melhor do que estar aqui, porque chove-nos em cima”.
Armando Grácio, o marido, trabalha em França e regressou de urgência após dois dias sem conseguir contactar a família, devido à falta de comunicações.
Ao chegar, deparou-se com um cenário que descreve como devastador. “Eu cheguei há noite. Custou mais durante o dia quando vi”, contou.
Apesar da situação difícil que a família atravessa, as contas para pagar não o deixam permanecer perto da família. “Tenho que trabalhar. As contas estão a cair”, desabafou, ainda com a voz ainda trémula.
Mesmo no meio do caos, a família conseguiu retirar algumas recordações que o dinheiro não compra, como são exemplo, fotografias e objetos com valor sentimental.
O apelo é claro e urgente: ajuda para isolar a habitação e impedir que a água continue a entrar”.
“Estamos à espera de alguma equipa que nos possa fazer o isolamento do telhado para depois ser reposto. Nós já temos água a correr pelas paredes, pelos roupeiros, a correr por todo o lado”, alertou.
Até lá, a família continua à espera de poder, pelo menos, estancar os danos e começar a pensar no regresso.








