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Depois da destruição o desafio invisível é a saúde mental

Psicóloga clínica Joana Correia explica reações emocionais esperadas e alerta para sinais de risco a médio prazo na sequência da depressão Kristin. Especialista destaca ainda a importância dos primeiros socorros psicológicos e da resiliência da comunidade

O rasto de destruição provocado pela depressão Kristin na região de Leiria está a ter consequências que ultrapassam os danos materiais, com efeitos psicológicos significativos na população afetada. Medo extremo, ansiedade, hipervigilância, alterações do sono e dificuldades de concentração são algumas das reações mais comuns identificadas nos primeiros dias após o fenómeno, explica a psicóloga Joana Correia.

Em conversa com o Diário de Leiria, a especialista sublinha que estas reações são, na maioria dos casos, “expectáveis e normativas”, variando de pessoa para pessoa consoante o seu historial psicológico, experiências anteriores e estratégias de adaptação. “Uma coisa é viver uma catástrofe pela primeira vez, outra é já ter passado por situações semelhantes e ter estratégias de ‘coping’ associadas”, explica.

Segundo Joana Correia, muitas pessoas entram num estado de alerta permanente após viverem uma situação de medo extremo, o que se reflete num aumento da hipervigilância, instabilidade emocional, irritabilidade e cansaço. Em alguns casos, surgem também confusão, desorientação e dificuldades em retomar a rotina diária, num processo que a psicóloga descreve como um “recomeçar”, em que a pessoa volta a recolher informação e a questionar constantemente as suas decisões por receio de novos acontecimentos.

Nesta fase inicial, a psicóloga explica que a ajuda passa sobretudo por processos de autorregulação e integração da experiência vivida. “Os primeiros socorros psicológicos ajudam a pessoa a promover uma autorregulação e até uma aceitação do evento que acabou de acontecer”, disse. Contudo, os sinais de alerta surgem quando, entre um a três meses após o acontecimento, os sintomas não diminuem e, pelo contrário, se intensificam, podendo evoluir de reações normativas para patológicas. “Nor­malmente, a reação aguda às situações de stress vai até às quatro semanas. É natural que estas alterações aconteçam de forma diferenciada de pessoa para pessoa. É uma experiência negativa, marcante e é preciso integra-las na sua experiência de vida. Se estas sensações, estas alterações de comportamento, pensamento e emoção se forem aumentando (…) aí a pessoa começa a desenvolver alguns sintomas que passam de normativos a patológicos”, vincou.

Por isso mesmo, Joana Correia considera “fundamental” a disponibilização de primeiros socorros psicológicos à população, que já está a ser prestado por vários municípios da região, defendendo que nem todas as pessoas conseguem lidar sozinhas com uma experiência desta natureza. Alerta, no entanto, que este tipo de apoio deve ser prestado por profissionais “com formação específica”, uma vez que uma intervenção inadequada “pode agravar o impacto traumático”.

Entre os grupos mais vulneráveis estão as crianças, os seniores, pessoas com antecedentes de saúde mental e também profissionais de emergência e de saúde. No caso das crianças, podem surgir sintomas como “ansiedade, regressões comportamentais e maior dependência dos adultos”. Já os seniores enfrentam, muitas vezes, perdas materiais e emocionais acumuladas ao longo da vida, o que torna o impacto mais limitante. Os profissionais de emergência, por sua vez, podem vir a sentir, numa fase posterior, “exaustão e risco acrescido de ‘burnout’”.

A perda de casas, bens ou meios de subsistência pode igualmente desencadear processos de perda psicológica. Joana Correia explica que, embora nem sempre se trate de um luto patológico, existe um sentimento de ausência associado à perda de algo que representa a base da estrutura vivencial de uma pessoa, com fases semelhantes às de outros processos de luto.

Como mensagem final à população da região, a psicóloga destaca a importância da resiliência e da interajuda. “O ser humano tem uma capacidade implícita de adaptação às adversidades”, afirma, sublinhando que, apesar do caos, a solidariedade entre famílias, amigos e vizinhos é um dos aspetos positivos que emerge destes momentos difíceis.

“O ser humano tem uma capacidade e uma competência implícita que é a resiliência e efetivamente nós conseguimos aprender a lidar com as adversidades”, concluiu. |

Fevereiro 10, 2026 . 09:00

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