
‘Apagão’ simulado em jogo prolongou-se na vida real de investigador há 22 dias sem luz
Aquilo que durante muito tempo foi simulado num jogo de tabuleiro tornou-se, nas últimas semanas, realidade dentro de casa. Micael Sousa, criador de jogos para gestão de emergências, está há 22 dias sem eletricidade, na Barosa, onde reside no concelho de Leiria. Uma situação que descreve como uma verdadeira “reinvenção” que tem mudado profundamente a rotina familiar e profissional.
O também investigador é autor do ‘EMCE: City Blackout’, um jogo de tabuleiro que coloca os participantes no papel de gestores de crise que precisam lidar com as consequências em cadeia de um apagão massivo na rede elétrica.
Apesar de ter desenvolvido este jogo, nada o preparou para viver um apagão prolongado na própria casa, onde ele e a sua família se viram obrigados a “encontrar alternativas” que nunca tinham sido equacionadas.
Com a casa “totalmente elétrica” e os painéis solares inoperacionais após os danos provocados pela depressão Kristin, a família viu-se obrigada a reorganizar a rotina diária por completo. “Obrigou a termos que recorrer principalmente à família, aos meus pais para podermos tomar banho e fazer refeições. Sem este apoio complementar seria impossível”, salientou Micael Sousa.
Grande parte das refeições passou a ser feita fora de casa, entre a casa dos pais de Micael, nos Parceiros, restaurantes e refeições frias quando não há alternativa.
A par das deslocações constantes, multiplicaram-se as despesas com o combustível para alimentar o gerador, a compra de lanternas, baterias e ‘power banks’ e até de um sistema de internet por satélite.
O gerador assegura “os mínimos” e obriga a uma gestão rigorosa de consumos. “Temos limites e temos de ter consciência do que estamos a gastar”, acrescentou.
No meio da instabilidade vivida atualmente, a lareira tem ajudado a manter alguma normalidade. É ali que a família aquece a casa e onde, muitas vezes, ferve água ou prepara um chá ou café numa panela ao lume.
Habituado ao trabalho remoto, Micael Sousa admitiu ter atualmente a sua atividade profissional “muito condicionada”. “Eu trabalho em casa e é um constrangimento ainda maior. Tenho ido à Startup Leiria tentar fazer algum trabalho, mas ainda assim muito condicionado”, contou.Se os dias são exigentes, as noites são apontadas como o momento mais difícil. “Temos dormido cada um com as crianças para elas não estarem sozinhas e isso já é uma mudança”, referiu.
Com as aulas já retomadas, os pais procuram minimizar o impacto emocional dos filhos, recorrendo a jogos de tabuleiro e a atividades familiares.
Além da impossibilidade de trabalhar com normalidade durante quase três semanas, também a sua habitação sofreu danos materiais. O telhado foi afetado pela tempestade e as reparações feitas até agora são provisórias. “São reparações que estão mais ou menos feitas, não são finais. Agora, quando vier o bom tempo é que dá para reparar através de uma empresa especializada”, salientou.
Para além do desgaste físico e financeiro, há um sentimento de revolta. “Há um sentimento de frustração, porque não podemos fazer grande coisa. Há uma revolta, há uma certa deceção especialmente com a comunicação com a E-Redes, porque não conseguimos comunicar com eles de modo eficiente. Não nos dão estimativas”, lamentou, acrescentando que vai ter que continuar “a apostar em geradores e baterias”.
Todos os dias tenta obter informações junto da E-Redes sobre a reposição do serviço e a resposta repete-se: “É sempre o mais rápido possível. Não nos conseguem dar uma data de resolução”, acrescentou.
Os jogos que o investigador lançou para situações de emergência são dirigidos sobretudo a especialistas e entidades. Agora, defendeu, talvez faça sentido desenvolver um modelo “mais massificado” que ajude as famílias a prepararem-se para cenários de crise prolongada como este.








