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Carnaval devolve espírito festivo à Nazaré ainda marcada pela tempestade

O Carnaval saiu ontem à rua na Nazaré, cumprindo a tradição que há décadas marca o calendário da comunidade. Mesmo depois da tempestade ter abalado a vila, a marginal voltou a encher-se de público para assistir ao desfile de carros alegóricos e grupos organizados, que mantiveram a energia habitual.

Depois da tempestade ter deixado marcas bem visíveis na vila, a Nazaré não abdicou de uma das suas tradições mais emblemáticas. Num território, onde a depressão Kristin também não deu tréguas, o Carnaval voltou a sair ontem à rua, cumprindo uma tradição que, para muitos, é inadiável.
O desfile não aconteceu no domingo, como é habitual, devido ao estado de calamidade que se prolongou até segunda-feira, na sequência da depressão Kristin, e que obrigou vários municípios a cancelarem os festejos.
Mas ontem, a marginal da vila voltou a encher-se de carros alegóricos, grupos organizados e largas centenas de pessoas a assistir. O sol, que finalmente espreitou depois de semanas de muita chuva, ajudou a compor um cenário que devolveu à marginal o movimento e a energia características desta época do ano.
À primeira vista, pouco distinguia esta edição das anteriores. É certo que desfilaram menos carros alegóricos, mas a dança, os figurinos, os foliões e a energia contagiante não faltaram à festa.
No entanto, ainda permanecem alguns sinais da passagem da depressão Kristin: algumas fachadas de lojas e restaurantes estão danificadas e, em zonas da vila mais afastadas, postes derrubados.
A tempestade causou estragos no património e habitações da vila, mas não conseguiu abalar o espírito de quem faz do Carnaval uma tradição de vida. É o caso de Fátima Mirão.
Poucos minutos antes do desfile começar, a equipa de reportagem do Diário de Leiria encontrou a nazarena a abanar-se ao som da música de fundo e a aquecer para o desfile. Fátima Mirão integrava o grupo das Maltezas, um grupo já bastante conhecido do público pela sua fatiota inconfundível de tons rosa e azul.
Com 68 anos, desfila desde que começou a dar os primeiros passos, o que, no seu entender, reforça a importância de mostrar ao povo a identidade que caracteriza a Nazaré. Porque a folia “está no sangue e na alma” e os visitantes “já estão habituados a ver”.
“Saímos no domingo, mas não foi a mesma coisa e hoje fizemos questão de nos apresentarmos para o Carnaval e de cultivar este espírito festivo. Não podemos viver só na tristeza”, sublinhou a nazarena.
E como recordar é viver, Fátima Mirão puxou pela memória para falar dos primórdios do Carnaval da Nazaré. “O Carnaval era diferente. Fazia-se nas tabernas que eram os espaços que os pescadores frequentavam. Houve um primeiro grupo de senhores na Nazaré que organizaram o Carnaval que se chamavam sábitas, com instrumentos improvisados. Não havia tambores, a música fazia-se com tampas de panelas e tachos”, lembrou, reforçando a importância que a tradição tem para as gentes da vila piscatória.
No meio de vários grupos e carros alegóricos, o desfile manteve a irreverência habitual.
Os ‘Tramelgas’, por exemplo, aproveitaram para “mandar um recado à ministra da Saúde”. Vestidos de médicos e enfermeiros, acompanhados por uma carrinha que simulava assistência na A (autoestrada) 8 e na A17 – transformada em maternidade - via-se uma mulher deitada na maca a dar à luz, uma referência aos partos realizados por bombeiros e uma crítica à situação do Serviço Nacional de Saúde.
A sátira foi alvo de olhares atentos do público e algumas gargalhadas. Vestido de médico e com um estetoscópio ao peito, um dos anfitriões, Hermínio Nascimento, explicou ao nosso jornal que “com os bebés a nascerem nas autoestradas e nas ambulâncias” e como “os parteiros têm sido os bombeiros”, decidiram enviar “um recado à ministra da Saúde para ter mais atenção”.
Para Hermínio Nascimento, o Carnaval também pode e deve passar mensagens e alertar para problemas existentes na sociedade. Por outro lado, o folião reconhece que o desfile que ontem saiu à rua também teve ainda outra importância, ajudando a levar “um bocadinho de alegria às pessoas que ficaram sem telhados e com as coisas destruídas”, na sequência da depressão Kristin.
Nascido e criado em Leiria, Hermínio Nascimento também viu bem de perto o rasto de destruição deixado pela depressão Kristin. Por isso mesmo quis, juntamente com os restantes ‘Tramelgas’, “transmitir boa energia à população”.

Visitantes tiraram a desforra
Na marginal, bem composta, multiplicavam-se os telemóveis no ar, as gargalhadas e as danças. Entre os visitantes, a equipa de reportagem do nosso jornal encontrou Patrícia e Miguel Duarte, com as filhas Júlia e Carolina, vestidas de guerreira de k-pop e rapunzel. Diretamente do Juncal, no concelho de Porto de Mós, não pensaram duas vezes em deslocar-se à Nazaré para “passear” e deixar-se contagiar pela animação do Carnaval. “Acho que nos alegra um bocadinho. Temos duas crianças e passámos o fim de semana todo em casa e elas nem sabem que é Carnaval”, contou Patrícia Duarte.
A tarde serviu, assim, para “tirar a desforra” e dar a oportunidades às filhas de viver a folia, mesmo num contexto difícil.
Também Nilza Abegão, de Valados dos Frades, Nazaré, fez questão de marcar presença. Vestida à “troncagem”, também não quis deixar de sentir o espírito festivo, já que também para si e para a família os dias não têm sido fáceis.
A sua habitação sofreu alguns danos, mas isso não foi razão para passar ao lado de uma tradição que lhe diz muito. “Apesar do que vivemos, temos que nos divertir”, salientou.

Fevereiro 18, 2026 . 08:30

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