
Colmeias e Memória recupera mas há quem ainda esteja às escuras
Há 24 dias que a depressão Kristin atingiu o território e fustigou a região de Leiria. Na União de Freguesias de Colmeias e Memória, no concelho de Leiria, há pelo menos dez casas que continuam sem eletricidade. Entre elas está a de Ana Sousa onde vive com a família.
Ana Sousa, de 42 anos, conta que a sua habitação é totalmente elétrica, desde o aquecimento à confeção de refeições, tudo depende da energia que ainda não regressou.
A situação torna-se particularmente delicada porque na casa vive a avó de Ana Sousa, de 98 anos, acamada e totalmente dependente, exigindo cuidados extraordinários. Dar--lhe conforto e dignidade tornou-se um desafio acrescido desta família.
“Nos primeiros dias existe, claro, uma resiliência e adaptação ao que estamos a viver. Mas a paciência começa a esgotar-se quando vemos que no resto da aldeia já há eletricidade, exceto em dez casas.”
Segundo relata, a EDP já terá identificado a origem do problema: um cabo de baixa tensão. “É só uns cabos que faltam ligar.” A frustração aumenta com a perceção de desorganização no terreno. A família vê “equipas muito perto de casa, já falámos com eles e nunca têm indicação sobre a nossa situação”.
A habitação desta família é junto a um pinhal, cenário que, na noite da intempérie, se transformou em ameaça. “Vimos os pinheiros a cair em cima da casa, foi assustador”, recorda. Vários pinheiros de grande porte tombaram sobre o telhado.
Os estragos foram reparados apenas três dias depois da passagem da tempestade, devido às condições meteorológicas adversas que se fizeram sentir após a passagem da depressão Kristin. Durante esse período, choveu dentro da habitação. “Felizmente tínhamos material em casa para fazer essas reparações. No meio da tragédia toda, disso não nos podemos queixar”, contou Ana Sousa.
Sem conseguir contactar para pedir ajuda e conscientes de que a Proteção Civil teria “as mãos cheias de ocorrências”, Ana Sousa e os familiares uniram forças e meteram mãos à obra para retirar as árvores e limpar os estragos.
“Tivemos de ser nós. Não conseguíamos contactar com ninguém, então fomos nós, entre família, que limpámos tudo”. “Não vemos a situação resolvida, percebemos o porquê das demoras, mas são demasiados dias. Já estamos exaustos”, afirmou.
Também a comunicação institucional é apontada como insuficiente. A família afirma não ter conseguido contacto com a Junta de Freguesia de Colmeias e Memória. “A junta de freguesia não nos atende o telemóvel. Acreditamos que estejam a trabalhar para devolver a normalidade a todos, mas se estão a fazê-lo não têm comunicado qualquer tipo de trabalho”, lamentou a moradora.
Entretanto, a família conseguiu um gerador, que liga apenas em “períodos-chave do dia”, sobretudo nas horas de refeição. “É desligado muito cedo”. Para manter algum equilíbrio emocional, a família procura estratégias simples. “Temos lido muito” e feito jogos em conjunto “para tentar passar o tempo e desanuviar”.
Até o quotidiano do cão da família foi alterado. O portão da casa “deixou de existir” com a queda das árvores, obrigando a que o animal, habituado a circular livremente no quintal, permaneça fechado dentro de casa por motivos de segurança.







