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Família Monteiro está sem luz há 27 dias e vive rotina que parece não ter fim

A família Monteiro conta 27 dias sem eletricidade e aprende, à força, a reorganizar a vida em função de um gerador na sua habitação, em Mata da Bidoeira. O sentimento é de frustração e desespero.

Há precisamente 27 dias que Ana Sofia acorda com um nó na garganta. Todos os dias, às 05h30, está de pé, atravessa a casa às escuras, quando o sol ainda não nasceu, e prepara o café à luz da lanterna do telemóvel. Não é, de longe, a rotina matinal que desejava. É a possível desde 28 de janeiro, o dia em que Ana Sofia e sua família ficaram sem eletricidade em casa, à semelhança de grande parte do território atingido pela depressão Kristin.
Na casa da família Monteiro, localizada na Mata da Bidoeira, lugar da freguesia de Bidoeira de Cima, no concelho de Leiria, a vida passou a organizar-se em torno de um gerador comprado no dia a seguir à tempestade. Não houve tempo para hesitações, pois era preciso evitar mais prejuízos além daqueles que a tempestade provocou na sua habitação e salvar os alimentos do congelador para garantir as refeições de cinco pessoas.
Mas nem isso devolveu plena normalidade à família Monteiro. Desde então, Ana Sofia gasta sensivelmente 20 euros por dia em combustível, mesmo ligando o equipamento em períodos do dia específicos e de forma controlada. “É muito limitado [o dia a dia]. Temos de fazer muito boa gestão e ligá-lo só mesmo para o necessário”, explicou.
“Vive-se e sobrevive-se. Por acaso pudemos comprar [o gerador], mas é muito mais despesa. Nós estamos a conseguir, mas há muita gente que não consegue. Durante três semanas gastar 20 euros por dia, só para o gerador. Fora as outras coisas, porque temos que ter cuidado com a alimentação. Não posso estar a comprar coisas para poder ter no congelador todos os dias. Tenho que comprar comida diária que se possa manter fora do frio”, sustentou.
Com três filhos de 9, 17 e 23 anos, a logística tornou-se um exercício permanente de equilíbrio. Durante a semana, o gerador só é ligado ao final da tarde, quando regressa do trabalho e precisa de preparar o jantar ou permitir que os filhos façam os trabalhos de casa. Enquanto está fora, a casa permanece desligada para reduzir custos. Também os banhos passaram a ser organizados ao detalhe. A água passou a ser aquecida na placa a gás ou deslocavam-se aos balneários do GDR Bidoeirense.
Para lavar a roupa chegou a deslocar-se a Leiria, onde vive a mãe, ou recorrer às lavandarias, sendo certo que cada decisão tem um peso financeiro acrescido. “Temos que contar o dinheiro todo e vir a Leiria todos os dias para tomar banho ou lavar roupa também não era fácil. Tem que se gerir. Ou gasto 20 euros em combustível em casa ou vou a Leiria lavar a roupa”, realçou.
O sentimento que se instalou em Ana Sofia é de “muito desespero”. “A primeira semana ainda era aceitável, só que quando começamos a ver toda a gente à nossa volta a ter luz é desesperante. Já tive crises de choro”, confessou.
Sentindo-se “completamente abandonada” e a viver por sua conta e risco, Ana Sofia contacta diariamente – por vezes mais do que uma vez - a E-Rede e a resposta repete-se. “Dizem-me para ter paciência”.
A previsão apontada pela operadora para o restabelecimento da eletricidade é no final deste mês. “Poderá ser mais uma semana sem luz, mas também ninguém pergunta como é que se sobrevive a mais uma semana”, lamentou.
Para além da escuridão provocada pela ausência de eletricidade, também se instalou o medo. O filho mais novo, de nove anos, deixou de conseguir dormir sozinho. Acorda com a mãe antes do amanhecer e regressa depois para junto do irmão mais velho porque “tem medo de estar às escuras e sozinho”.
Ana Sofia tentou, nos primeiros dias, suavizar a situação. Dizia aos filhos que era uma forma de aprenderem “outras maneiras de sobrevivência”, mas passados 27 dias a tolerância já não é a mesma e vai-se perdendo.
O marido trabalha no estrangeiro e quando tudo aconteceu estava longe. Viu as imagens, acompanhou as notícias, mas a dimensão real só se tornou evidente quando regressou, isto porque também a sua casa sofreu alguns danos, principalmente no telhado, entretanto, reparado por ele.
Também amigos ajudaram a família a arranjar “um solução para o telhado para não haver tantas infiltrações”.
À noite, quando o gerador se desliga “é terrível”. “Vamos para a cama mais cedo. Tem que se fazer escolhas”, salientou, admitindo que “nunca” pensou sentir “inveja de pessoas que tenham luz”. “Sinto que fomos completamente esquecidos”, lamentou.
Todos os dias, ao regressar a casa, Ana Sofia olha para os postes e para os cabos à procura de sinais de intervenção, com a esperança de que finalmente a eletricidade tenha sido reposta.
Se a luz voltasse hoje, acredita que a primeira reação seria chorar. Depois faria um bolo para os filhos matarem as saudades de alguma normalidade.
Até lá, a família Monteiro continua a aguardar por dias mais iluminados.

Fevereiro 23, 2026 . 08:00

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