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Quatro anos de Guerra

Março 2, 2026 . 18:30
Opinião: "Trata-se de considerar que nas negociações em curso se deva aceitar a cedência dos territórios desejados pela Rússia e ainda não ocupados em troca da segurança futura da Ucrânia garantida pela NATO"

Nunca na minha já longa vida escrevi um texto como este, em que defendo algo que sinto e sei não está de acordo com o meu desejo, a minha inteligência e as minhas convicções, mas a que a razão me obriga. Trata-se de considerar todos os perigos da guerra na Ucrânia e de decidir com a razão e não com o coração.
Trata-se de considerar que nas negociações em curso se deva aceitar a cedência dos territórios desejados pela Rússia e ainda não ocupados em troca da segurança futura da Ucrânia garantida pela NATO, ou por tropas europeias estacionadas na Ucrânia. As razões para esta estratégia de ganhar tempo são as seguintes:

1 - Ser pouco provável que Putin ceda nesta questão do ganho territorial e a probabilidade é a continuação da guerra com o perigo maior de que qualquer de duas alternativas ser má. Primeira: se a Rússia vencer a guerra, esse mesmo território será perdido para a Ucrânia, ou pior, fica em causa a independência do país. Segunda: se a vitória for da Ucrânia, Putin nunca a aceitará sem recorrer ao uso de armas nucleares, com o perigo maior de uma guerra total. Seja porque Putin é um louco perigoso, que porque provavelmente estará doente, seja porque não existem alternativas políticas credíveis na Rússia e o recurso ao uso nuclear está inscrito na teoria da defesa russa para o caso de derrota no campo de batalha. Trata-se, pois, de acreditar ou não nessa possibilidade e pessoalmente acredito.

2 - A segunda razão radica na convicção de que no futuro a Ucrânia terá muito mais e melhores condições para o seu rápido desenvolvimento, através do modelo democrático de governo e da qualidade do seu povo, além do apoio da União Europeia, do que a Rússia de Putin. Ou seja, em dez, ou vinte anos, a diferença de desenvolvimento económico entre os dois países ditará que serão os povos dos territórios agora perdidos que reclamarão o retorno à Ucrânia e nem Putin é eterno e nem o é o modelo russo de governo. Ou seja, perante o perigo de uma guerra nuclear todas as considerações provocadas pela memória de Winston Churchill que sempre me guiaram estão alteradas. Ou seja, não há território que valha o risco, mesmo considerando a dimensão do sacrifício.

3 - Uma terceira consideração parte do princípio de que no caso de Putin usar armas nucleares na Ucrânia, a Europa não pode contar com os Estados Unidos de Donald Trump e a capacidade nuclear da França e do Reino Unido não representam uma defesa credível e a probabilidade é que nessas condições a União Europeia nada faça, o que representa o pior cenário possível para a defesa da Europa.

4 - Claro que todos sabemos do perigo de novas aventuras de Putin relativamente aos seus vizinhos e mesmo para a União Europeia, mas trata-se de ganhar tempo, seja relativamente a mudanças no panorama político dos Estados Unidos, seja o enfraquecimento económico da Rússia. Ganhar tempo será essencial para evitar uma guerra nuclear ou a derrota da Ucrânia no campo de batalha.

Existe uma outra alternativa, que é convencer a China a entrar directamente no esforço de negociação, através da intervenção da ONU, como tenho defendido, mas com Guterres essa é uma possibilidade remota. Com a negociação nas mãos de Trump e a União Europeia a ver, podemos estar certos de que o resultado será a defesa dos interesses de Putin. Continuar a guerra é, nas presentes circunstâncias, o maior perigo, ganhar tempo, a solução mais segura.

Março 2, 2026 . 18:30

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