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Entre a areia e os escombros a Praia do Pedrógão ergue-se para voltar a sorrir no verão

A tempestade deixou marcas nas fachadas, nas ruas e na rotina de quem vive do mar e para o mar. Mas, na Praia do Pedrógão, o tempo é de reconstrução com o verão no horizonte

Ainda há areia acumulada nas ruas e muitas telhas levadas pela força do vento. Mas, na Praia do Pedrógão, o olhar já está pousado no horizonte — e no verão que se aproxima. Por esta altura, a pitoresca praia do concelho de Leiria parece um estaleiro a céu aberto, com obras a decorrer à velocidade possível. A poucos meses da época balnear, comerciantes e moradores desdobram-se em limpezas, obras e pequenos gestos de entreajuda para que tudo esteja “o mais normal possível” quando os primeiros turistas regressarem à praia.

“Quero tentar fazer de tudo para estarmos prontos no verão, e deixar tudo o mais ‘normal’ possível”, adianta Tiago Maccielo, proprietário do restaurante Rotunda Mar, enquanto aponta para a zona exterior do estabelecimento, arrancada pela tempestade.

Ainda assim, o empresário admite alguma apreensão com a falta de mão de obra. “É uma ‘guerra’ para encontrar pessoas para trabalhar”, confessa Tiago Maccielo.

Durante 17 dias, trabalhou a partir de geradores. A luz falhou, a água faltou, a internet desapareceu. “Foi difícil”, resume. A sala exterior perdeu- -se por completo e o interior não escapou aos estragos. Ain­da assim, a resposta foi imediata: limpar, reparar, reabrir. “Tratámos de tudo, limpámos tudo e voltámos à vida normal de novo. Quanto mais rápido melhor”. Agora, diz, o essencial é devolver a imagem cuidada da praia. “Há muito lixo para ser tirado e muitos postes de iluminação partidos. Para voltar ao normal tinha que se começar por aí para, pelo menos à frente da praia, estar o mais normal possível para os turistas”.

Também Diego Marques, funcionário do restaurante Dona Olinda, fala com a serenidade de quem já fez as contas aos prejuízos, mas escolhe concentrar-se no futuro. A tempestade deixou marcas, mas nada que o impedisse de reabrir portas. “Graças a Deus não tivemos muitos estragos”, partilha.

Por estes dias, com o sol de regresso, começa a ver novamente movimento e Diego Marques deixa um apelo que é também um grito de resistência: “Nós estamos com uma expetativa que o verão seja bom. Como o pessoal já ficou muito tempo dentro de casa, espero que se animem e venham para cá. A tempestade já passou e nós temos que continuar a lutar, a trabalhar. Não podemos parar”. E reforça: “Venham à Praia do Pedrógão, venham conhecer o nosso restaurante e todos os estabelecimentos daqui porque nós vamos estar prontos para recebê-los de portas abertas”.

Durante o último mês, o mais duro, recorda, foi ver a praia vazia. “A tempestade atrapalhou muito os comerciantes. Poucos [negócios] ficaram abertos e alguns tiveram prejuízos muito grandes. Aqui todos estamos habituados ao turismo e à restauração. Como estava tudo fechado, ficou muito mau”.

 

Esperança e prudência entre os moradores

Entre os residentes, o sentimento oscila entre a esperança e a prudência. Adélia Bastos, natural da terra, percorre as ruas ainda marcadas pelos estragos e faz um balanço realista.

“Ainda há muita coisa para fazer, mas aos poucos vamos encaminhando isto”, assume. Os maiores danos, conta, concentraram-se na zona do Casal Ventoso e na marginal, onde houve carros destruídos e infraestruturas afetadas.

Questionada sobre o verão, hesita. “Estou a ver isto muito apertado. Ainda há muita coisa para fazer: ruas para limpar, telecomunicações a funcionar e estradas para arranjar”, disse.

“Ainda esta manhã a luz falhou”, acrescentou, admitindo, contudo que há pessoas a trabalhar afincadamente para que o território vá apresentando pequenos sinais de normalidade.

Jorge Oliveira, que vive há dois anos na localidade, prefere sublinhar o lado invisível da tragédia: a solidariedade. “Hou­ve muitos estragos, mas aquilo que eu notei muito foi a onda de solidariedade que se gerou. Houve malta que começou logo a limpar ruas, a juntar entulho”, contou.

A luz e a água demoraram cerca de uma semana a regressar. As comunicações foram intermitentes. “Na rua do mercado, às vezes apanhávamos um ‘piquinho’ de rede para mandar uma mensagem, mas houve muitos dias que não conseguíamos em lado nenhum”, recorda.

Ainda assim, acredita que a praia poderá recuperar todo o seu esplendor. “Eu penso que a Praia do Pedrógão vai estar pronta para receber as pessoas”, ainda que o areal o deixe apreensivo, mas com a certeza que a sabedoria popular não costuma falhar. O pessoal daqui diz que o que o mar tira também devolve, por isso vamos ver”.

Entre máquinas, vassouras e andaimes, a vida vai regressando. Há cansaço, mas também determinação. Porque, para quem vive da restauração, do comércio e do verão, cada dia conta.

E na Praia do Pedrógão, mais do que recuperar paredes ou passeios, trata-se de recuperar o sorriso a tempo de voltar a receber, de braços abertos, quem a visita.|

Março 4, 2026 . 08:30

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