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Depois da tempestade...

Março 6, 2026 . 11:27
Opinião: "Crianças, jovens, adultos, idosos… importa cuidarmos de quem nos rodeia. Validar sentimentos, ouvir sem julgar, falar sobre o que aconteceu, importa".

Nenhum «Kit de Sobrevivência» nos prepara para a realidade de uma catástrofe. Nenhuma aula de Geografia conseguiu ilustrar o que se sente quando somos cilindrados por ventos ciclónicos. Nem nenhum curso de Psicologia nos prepara para a dureza que é viver, na primeira pessoa, o impacto de uma catástrofe natural, como aquela que assolou a região de Leiria na passada semana.
Uma semana depois, forçamo-nos a retomar rotinas (alguns nunca as puderam interromper, mesmo com o telhado em cacos), ainda que a vida teime em parecer virada do avesso. Temos de nos reerguer, dizem. É urgente continuar, sabemos. Mas como vamos fazê-lo?
Situações de catástrofe como as que vivenciamos podem afetar de forma significativa a nossa saúde psicológica e o nosso bem-estar: o rasto de destruição à nossa volta, o sentimento de insegurança, as perdas materiais a que não sabemos como fazer face, as notícias incessantes na televisão, o cansaço de dias e dias sem eletricidade… tudo isto deixa marcas. Umas visíveis… outras nem tanto.
Alguns poderão sentir-se enérgicos, impelidos para a ação, como se a adrenalina do momento funcionasse como um combustível para um dínamo interno de proatividade – essa abençoada “mania” do povo português. Outros poderão sentir-se tristes, devastados com o que aconteceu, desesperados com as notícias de que a chuva não dará tréguas. Poderemos, ainda, sentir-nos vulneráveis, irritados, furiosos connosco, com os outros, com os serviços, com aquilo que nem sabemos nomear (“raio da eletricidade que não chega a este fim de mundo!” – praguejo eu, todos os dias). Por isso, é tão importante compreender que, apesar de cada pessoa reagir à sua maneira (não existe uma forma “certa” ou “errada” de reagir), há respostas que são normais e comuns de se ter face a estes acontecimentos, mesmo que nos irrite esta montanha-russa de imprevisibilidade em que o nosso coração se tornou.
Crianças, jovens, adultos, idosos… importa cuidarmos de quem nos rodeia. Validar sentimentos, ouvir sem julgar, falar sobre o que aconteceu, importa. Voltar à escola, sem pressa para realizar provas de avaliação e dar, antes, espaço para colo, escuta e compreensão, importa. Chegar ao trabalho e ter tempo para olhar para e pelos nossos colegas, para as suas necessidades, para o seu bem-estar, importa. Ser delicado com quem nos atende nos serviços, no dia a dia, mesmo que nos sejam desconhecidos, importa. Empatia e compaixão importam. Mais do que nunca.
Acima de tudo, importa cuidarmos de nós mesmos: olharmos pela nossa saúde física e mental, procurarmos manter rotinas de autocuidado, permitirmo-nos ter pequenos momentos de prazer sem nos sentirmos culpados e centrarmo-nos nas soluções e no que podemos fazer para ajudar a nossa comunidade, serão bons conselhos a seguir. A Ordem dos Psicólogos Portugueses disponibiliza, no seu site (www.ordemdospsicologos.pt → Documentos → Como lidar com um desastre natural), alguns recursos que poderão ser úteis à comunidade em geral e dispõe de uma bolsa de técnicos treinados para intervir em contextos de catástrofe. Em momentos como este, se sentir necessidade, não hesite em pedir ajuda.
Depois da tempestade, virá sempre a bonança.

Março 6, 2026 . 11:27

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