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O Tempo Para As Palavras

Março 12, 2026 . 17:30
Opinião: “Demorarmo-nos nas palavras importa. Sejam elas as de uma carta de amor (mesmo que desatualizada no seu emissor ou recetor), as de uma lista de supermercado (sempre nos ajuda a não esquecer os espargos), as de um bilhetinho passado à socapa por baixo das mesas da sala de aula (só o risco de um ralhete ou de uma participação disciplinar já faz meia aventura), as de um contrato bancário (onde algumas cláusulas soam a enigma digno de um episódio do Fort Boyard) ou as do romance da nossa vida”.

Acompanho, semanalmente, um grupo de crianças que está a ter algumas dificuldades em iniciar o processo de leitura e escrita. As letras emergem como códigos confusos, os sons que lhes associam saem “uma tecla ao lado” e, no entanto, persistem.
Entre o saricoté de um rabito que não consegue estar sentado, os ombros sempre a dançar e a agitação até do olhar, invisto parte daquela hora a sentir-lhes o espanto a cada rima formada ou a cada palavra decifrada.
No entanto, ao contactar com outros tantos miúdos mais velhos, constato que, à medida que vão progredindo na sua escolaridade, este encantamento pela escrita e pela leitura parece ir-se sumindo. Cada vez mais. Creio que cada nova geração se preguiça mais do que a anterior. Até a minha filha mais velha, outrora mini-leitora compulsiva, substituiu as mensagens escritas por ‘áudios’ e, como se tal não chegasse, ainda ouve aqueles que vai recebendo em modo metralhadora, numa velocidade 2x, digna de corrida pelas letras pequenas de uma qualquer publicidade a um concurso, medicamento ou produto bancário.
Cresci nos anos 80, observando a minha irmã mais velha a ler a coleção da Patrícia, a somar volumes da Agatha Christie nas prateleiras ou a regozijar-se com cada nova edição dos Diários de Adrian Mole. Os catálogos do Círculo de Leitores despertavam a minha curiosidade e a dos meus irmãos e, volta e meia, lá nos chegava a casa mais um volume de clássicos da literatura ou de enciclopédias com letras douradas, que iam preenchendo os armários da biblioteca. É curioso a minha mãe ter chamado ‘biblioteca’ ao espaço do escritório. Talvez diga muito da importância dos livros para a minha mãe – uma simples costureira, para quem a cultura não se confinou às linhas e tecidos e para quem a educação dos filhos terá sido o mais importante dos investimentos e sacrifícios. Os livros e as palavras foram-me, por isso, surgindo como coisas naturais pela vida fora, não me imaginando num regime de dieta de letras (nem de comidinha… à boa da verdade). Como poderemos ler Valter Hugo Mãe ou Afonso Cruz sem pararmos a cada frase para lhes sentirmos a música e a poesia? Como poderemos saborear Pablo Neruda a uma velocidade 2x?
Demorarmo-nos nas palavras importa. Sejam elas as de uma carta de amor (mesmo que desatualizada no seu emissor ou recetor), as de uma lista de supermercado (sempre nos ajuda a não esquecer os espargos), as de um bilhetinho passado à socapa por baixo das mesas da sala de aula (só o risco de um ralhete ou de uma participação disciplinar já faz meia aventura), as de um contrato bancário (onde algumas cláusulas soam a enigma digno de um episódio do Fort Boyard) ou as do romance da nossa vida.
As palavras, sejam as lidas ou as escritas, dão forma às coisas, concretizam emoções e dão ordem ao pensamento. Vale a pena investir nelas, seguros de que cada sinapse que dali emergir valerá bem a pena.

Março 12, 2026 . 17:30

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