Opinião: Portugal não se sabe governar
Parece ter sido de um general romano a frase de ter encontrado no extremo do continente europeu um povo estranho que não se governava nem deixava que o governassem. Maldição antiga, portanto, mas se analisarmos, por facilidade, apenas os últimos cem anos, a maldição continua.
Olhando a primeira República de regime democrático, período repleto de boas intenções, encontramos vinte e cinco anos de permanentes lutas partidárias, de ilusões e de projetos falhados, de violência e de sucessivos governos que entregaram o País à ditadura de Salazar. Seguiu-se meio século de maior racionalidade governativa, mas de um conservadorismo angustiante, de isolamento internacional, de pobreza e, porventura pior, um povo inteiro sem liberdade e com prisões para os que pensassem de forma diferente.
Agora, quase todos festejamos o 25 de Abril e a liberdade conquistada, mas já levamos meio século de curtos períodos de alguma racionalidade governativa, alternados a maioria do tempo com a mesma irracionalidade da primeira República. Chamamos a isso democracia, mas de facto deixámos concentrar todo o poder nos mesmos partidos políticos de sempre, os quais aprenderam pouco ou nada com a experiência anterior, partidos que se consomem em lutas obscuras e em ideias antagónicas, a meias com a corrupção, o desmazelo e a mesma pobreza de sempre. Só não encontrámos ainda um novo Salazar, porque os tempos mudaram e, felizmente, entregámos uma parte da nossa soberania na União Europeia, a fim de evitar o desgoverno total e, porventura, uma nova ditadura.
Solução que não evita a angústia de sucessivos governos, de um Parlamento crescentemente constituído por obscuros cidadãos que se escolhem uns aos outros, numa linha continua de perda de qualidade e de crescente marginalidade daqueles que durante algum pouco tempo souberam fazer as escolhas certas. O povo, esse entregou o seu destino aos partidos, deixou de ter o direito de participar na coisa pública e assiste através das televisões à mais abjeta chicana e às mesmas vitórias dos mais ilícitos interesses.
Nas televisões, temos agora um ex-primeiro ministro que muda de advogado com a facilidade com que muda de camisa, que reduziu ao silêncio o seu ex-partido e cuja acção conjunta protege os outros acusados, fruto de um sistema de justiça que compromete qualquer forma digna de vivência democrática. O Parlamento não se entende na nomeação dos cargos públicos que, em qualquer caso, reproduzem os mesmos interesses e a mesma incapacidade de contribuir para a boa governação. A abundância de fundos comunitários representa uma criminosa dispersão de objectivos que sucessivamente se anulam, alegrando, todavia, a mesma burocracia de sempre e os mesmos habitantes da gamela do poder.
A economia vegeta, a imensidade de pequenas empresas comerciais existentes garante uma baixa produtividade, as exportações são uma vergonha de entre os países da nossa dimensão da União Europeia, igualmente com pequenos mercados internos, mas com as exportações suficientes para lhes permitir melhor produtividade e melhor nível de vida.
O Serviço Nacional de Saúde é hoje um campo de batalha de interesses contraditórios, onde uns loucos inventaram a figura dos médicos tarefeiros, a escola pública tornou-se um lugar pouco recomendável, onde domina o poder sindical e o financiamento das universidades à custa da miséria das creches e do pré-escolar público. O turismo mantém a economia viável e a baixa produtividade, a construção aproveita-se dos baixos salários da imigração e não tem mãos medir em novos hotéis e novas residências para estrangeiros. Aparentemente ninguém se preocupa com o dia seguinte, que quando chegar, não será bonito de se ver. |





