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Mesmo sem sede, o Rancho dos Soutos não deixou cair o folclore

Sem sede, mas não sem rumo, o Rancho Folclórico dos Soutos voltou a erguer-se após a destruição provocada pela depressão Kristin, agarrando-se à vontade de manter vivo um grupo com mais de meio século de história e tradição

Dois meses depois de se terem deparado com as instalações da Associação Cultural e Recreativa dos Soutos repletas de destroços causados pela depressão Kristin, os elementos do Rancho Folclórico dos Soutos, na Caranguejeira, em Leiria, continuam a ensaiar e a fazer da dança um sinal de resistência, determinados em manter vivo um grupo que soma já 56 anos de história.

Mesmo sem a sede, que foi sendo construída ao longo dos anos com a “mão de obra” e o esforço da população, a coletividade agarrou-se à vontade de não deixar cair o folclore nem a identidade que tem vindo a preservar ao longo de mais de meio século.

O primeiro ensaio após a depressão Kristin aconteceu em fevereiro, graças à cedência das instalações por parte da Associação do Vale Sobreiro, na Caranguejeira, num gesto de solidariedade que, além de garantir a continuidade da atividade, reforçou o “espírito de união” e o “elo de ligação e cooperação” entre coletividades.

O regresso ao palco teve, por isso, “um significado especial”, marcado por “mais união” e “mais participação”.

Paralelamente à realização dos ensaios, o grupo de folclore, constituído por 45 elementos, tem seguido em frente, procurando apoio, através da submissão de candidaturas e apelando por donativos, com a esperança de recuperar a sede a tempo de receber, em julho, o seu festival de folclore internacional. “Foi mesmo desolador quando nos deparámos com o espaço, que tinha sido há pouco tempo reabilitado, naquele estado. O salão estava espetacular. Tinham sido instaladas placas novas e iluminação. Estava um salão muito agradável e de repente ficámos sem chão novamente”, lembrou Oriana Cristóvão, membro do rancho folclórico há pelo menos 35 anos.

Numa primeira fase, recordou, o trabalho, realizado com o apoio de voluntários, centrou--se na limpeza e remoção dos destroços na Associação Cultural e Recreativa dos Soutos, uma das mais antigas da freguesia.

A cobertura foi, entretanto protegida com lonas e a recuperação está num horizonte cada vez mais próximo, uma vez que está prevista a instalação de painéis ‘sandwich’ para repor o telhado da sede do rancho. Um investimento que, explicou, advém dos apoios que têm vindo a receber e dos próprios fundos da associação que “são insuficientes” para fazer face à despesa.

Outra das preocupações pren­de-se com o palco da sede, já antigo e assente numa estrutura de madeira. “É um risco muito grande”, alertou Oriana Cristóvão, admitindo que o problema já existia, mas foi agravado pela chuva e pelos estragos causados pela tempestade.

 

Rancho folclórico nunca pensou em parar atividade

A possibilidade de uma paragem por tempo indeterminado nunca esteve em cima da mesa. “Já com a covid ficámos um bocado receosos, mas nunca deixámos de estar no ativo. O rancho nunca fechou portas e temos essa força para continuar”, assegurou.

A explicação está na dedicação de quem ali permanece. “É sem dúvida a paixão que nos move. É preciso mesmo gostar”, referiu.

Esta determinação reflete-se também na programação. Apesar das dificuldades, o rancho não cancelou atuações e mantém a agenda cultural ativa. Há já uma deslocação garantida ao Algarve e a realização do Festival de Folclore Internacional da Caranguejeira, considerado uma referência no concelho.

Oriana Cristóvão não tem dúvidas sobre o futuro. “Com força, na mesma, para continuar e não desmotivar. Estamos motivados para continuar e manter a nossa referência. Não podemos deixar morrer as coisas”, assegurou.

O objetivo passa por “homenagear as raízes, os costumes e a tradição”, continuando a ser “uma escola” também para os jovens.

Oriana Cristóvão destacou ainda o papel da associação na transmissão de valores como união, família e tradição.

Na sua perspetiva, a experiência dos últimos tempos tornou ainda mais evidente o peso das coletividades na vida local. “Uma freguesia sem coletividades, para mim, não é uma freguesia muito rica. E isto é uma demonstração de que há coletividades, há união, e é isso que enriquece muito mais”, frisou.

Os apoios à Associação Cultural e Recreativa dos Soutos podem ser feitos através do fundo solidário criado na plataforma GoFundMe (https://gofund.me/cc6db65de), ou através do MBWay, para o número 918527094 e do IBAN PT50 5180 0004 0000 0407 1595 55.|

Março 30, 2026 . 08:30

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