A Batalha de La Lys aconteceu há 108 anos
Assinalaram-se ontem, dia 9 de abril, os 108 anos da Batalha de La Lys. Evocamos, hoje, a participação de alguns oficiais naturais do concelho de Leiria que, integrados no Corpo Expedicionário Português (CEP), viveram destinos diversos num dos momentos mais dramáticos da intervenção portuguesa na Primeira Guerra Mundial.
Entre esses oficiais, destaca-se o caso de Abel Rodrigues Casaleiro, alferes miliciano de Infantaria 19, que participou diretamente nos combates de 9 de abril de 1918. Dado inicialmente como desaparecido, viria a confirmar-se a sua captura pelas forças alemãs, sendo conduzido para o campo de prisioneiros de Bessen, no Mecklenburg. O seu percurso ilustra o destino de muitos militares portugueses feitos prisioneiros após o colapso das linhas do CEP.
Também Mário Charters de Azevedo, alferes de Artilharia, conheceu a dureza do cativeiro. Após ter sido anteriormente louvado pela sua coragem sob bombardeamento, foi dado como desaparecido na Batalha de La Lys, acabando por ser feito prisioneiro e internado no campo de Uchtermoor Fuchsberg. Apenas regressaria a Portugal já depois do Armistício, em janeiro de 1919, após libertação em dezembro do ano anterior.
Diverso foi o destino de Afonso Fino Bento de Sousa, oficial de Infantaria natural da freguesia da Sé de Leiria. Considerado um dos heróis portugueses daquele confronto, tombou mortalmente no próprio dia da batalha. Inicialmente dado como desaparecido, o seu corpo viria a ser encontrado em Laventie, confirmando-se que sucumbira aos ferimentos sofridos em combate. A sua morte simboliza o sacrifício extremo de muitos oficiais e soldados portugueses naquele dia.
Outros oficiais sobreviveram, embora não sem marcas ou distinções. Luís Carlos da Costa Guerra Charters d’Azevedo, tenente médico miliciano, esteve desaparecido após a batalha, vindo a ser localizado num hospital militar inglês, onde prestava assistência sem descanso. A sua dedicação seria posteriormente reconhecida com a Medalha da Vitória, já depois do fim da guerra, prosseguindo carreira na medicina militar.
No plano do reconhecimento militar, José Lopes, alferes de Infantaria, destacou-se pela sua atuação nos combates entre 9 e 11 de abril, sendo louvado oficialmente pela coragem, brio e competência demonstrados no comando de tropas em situações críticas. Também Adelino Octávio de Almeida Graça, alferes de Infantaria 3, foi distinguido como um dos heróis de La Lys, recebendo louvores e condecorações pelo seu desempenho.
Entre os oficiais presentes encontrava-se ainda o capelão José Ferreira de Lacerda, que assegurava a assistência religiosa à 4.ª Brigada de Infantaria. A sua ação, embora menos visível no plano militar, foi essencial no apoio moral e espiritual às tropas, num contexto de enorme desgaste físico e psicológico.
Por sua vez, o tenente-coronel de Artilharia, Luís Veríssimo de Azevedo, exerceu funções de comando na artilharia da 2.ª Divisão, tendo participado diretamente na batalha. Posteriormente, seria louvado pela sua competência e sentido de responsabilidade, vindo ainda a desempenhar funções no pós-guerra, nomeadamente no Colégio Militar.
Uma figura singular foi Adriano de Sousa Lopes, capitão equiparado e pintor modernista, que procurou testemunhar a guerra através da arte. As suas obras constituem hoje um importante registo visual da participação portuguesa no conflito, captando o dramatismo e a humanidade da experiência dos soldados.
A diversidade de destinos, morte em combate, ferimentos, desaparecimento, cativeiro ou reconhecimento por bravura, espelha a dureza da Batalha de La Lys e o elevado preço pago pelos oficiais de Leiria.
No conjunto, mais de quatro dezenas de oficiais do concelho integraram o CEP, a que se somaram centenas de sargentos e soldados, testemunhando uma participação significativa e honrosa da região na defesa da jovem República.
Essa memória coletiva encontra expressão no monumento erguido na cidade de Leiria, evocando os seus combatentes da Grande Guerra e perpetuando o legado de uma geração marcada pela experiência traumática do conflito.





