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Bullying - Urge “Virar o Bico ao Prego”

Abril 11, 2026 . 13:30
Opinião: “Pais, a privacidade dos vossos filhos menores e dos conteúdos que se escondem nos seus telemóveis nunca poderá sobrepor-se ao direito à dignidade, ao respeito e ao bem-estar de terceiros. Estejamos, pois, atentos: atentos ao que poderão estar a fazer aos vossos filhos, mas também àquilo que poderão nem imaginar que os nossos filhos fazem a terceiros”.

Volta e meia, aparecem-me “textos virais” nas redes sociais, que defendem algo como: «No meu tempo, comia Tulicreme, via o Agora Escolha e havia “o gordo”, “a girafa”, “o caixa de óculos”. Sempre se fecharam pessoas em cacifos, se mandaram bocas nos corredores das escolas e estamos aqui, vivos e sem traumas. Agora tudo é bullying!». Porém, este discurso nada mais faz do que normalizar a violência e reduzir as vítimas a “mariquinhas sensíveis”, perpetuando um padrão de agressividade de geração em geração, como se isso expiasse os males que infligimos ou aos quais fomos submetidos no passado.
Os dias de hoje não são, no entanto, iguais aos do século passado. Se, há umas décadas, havia um “chão comum”, hoje as referências das novas gerações são muito distintas entre si, encontrando-se desmembradas por um espaço cibernáutico infinito.
As redes sociais disseminam um boato, uma imagem humilhante ou expõem negativamente uma pessoa à velocidade do imediato, junto de um número incontável e incontrolável de pessoas. Por exemplo, existem grupos “secretos” de WhatsApp que agregam dezenas de adolescentes, sendo criados exclusivamente para disseminar mensagens de ódio, comentários misóginos e expor ou difamar outros jovens.
Na altura da “prova dos 9”, a impunidade ganha, seja porque facilmente foge ao controlo dos adultos, seja porque é protegida pelo manto do “não deve ter sido bem assim”. A verdade é que, quando algumas situações são identificadas, a tónica continua a ser colocada na desvalorização da situação e da vítima e pouco na responsabilização do(s) agressor(es): “é coisa de miúdos e sempre se fez”, “foi só uma brincadeira”, “ele/ela já pediu desculpa, o que querem mais?”. Pelo meio, as testemunhas permanecem em silêncio — muitas vezes sem coragem para contrariar a corrente dominante ou enfrentar quem detém capital social entre os pares.
Uma sociedade que não consegue antecipar o potencial sofrimento que determinada ação pode despoletar no outro é uma sociedade vazia de empatia, inconsequente e desumana.
Enquanto não houver um movimento coletivo de agir com compaixão para proteger o outro; enquanto não houver um reconhecimento público de que a prática de bullying é errada; enquanto crianças, jovens e adultos não perceberem que, se alguém deve sentir vergonha, esse alguém não pode ser a vítima; enquanto não se reconhecer que quem agride reiteradamente terceiros — física, verbal e/ou psicologicamente — precisa de ajuda especializada… continuaremos a legitimar agressões travestidas de brincadeiras e a apelidar o vexame público de sensibilidade extrema de quem o sofre, enquanto os agressores continuarão a ser vistos como uns “bacanos”, uns “ganda malucos” que “só” estavam a “tipo brincar sem ser por mal”. Pergunto-me: quando é que se humilha ou agride alguém por bem?
É urgente virar o “bico ao prego”.
E, se é verdade que as escolas têm um papel central na prevenção e na ação contingencial perante agressões continuadas no espaço escolar, também é inequívoco que só com famílias comprometidas com o bem-estar comum será possível ver uma ‘luz ao fundo do túnel’. Por isso, pais, a privacidade dos vossos filhos menores e dos conteúdos que se escondem nos seus telemóveis nunca poderá sobrepor-se ao direito à dignidade, ao respeito e ao bem-estar de terceiros. Estejamos, pois, atentos: atentos ao que poderão estar a fazer aos vossos filhos, mas também àquilo que poderão nem imaginar que os nossos filhos fazem a terceiros.

Abril 11, 2026 . 13:30

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