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8 de maio de 1945: a vitória e a esperança adiada

Maio 9, 2026 . 11:30
Opinião de Manuel Augusto Dias: "Em Portugal, o impacto político do fim da guerra foi significativo, ainda que limitado. No próprio dia 8 de maio, António de Oliveira Salazar comentou o acontecimento na Assembleia Nacional, procurando adaptar o discurso do regime ao novo contexto internacional. Contudo, setores da oposição democrática viram na derrota das ditaduras europeias uma oportunidade para pressionar a mudança interna"

O dia 8 de maio de 1945, há 81 anos, marcou a rendição da Alemanha nazi e o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa. Foi uma importante vitória militar dos Aliados, mas essa data simbolizou, sobretudo, o renascimento da esperança num mundo mais justo, mais livre de regimes totalitários e orientado para a paz. Em Portugal, sob o regime do Estado Novo, o acontecimento foi acompanhado com atenção e expectativa, ainda que enquadrado por uma realidade política que limitava mudanças profundas.
A guerra resultara da política expansionista de Adolfo Hitler, que, desde a sua chegada ao poder em 1933, desafiou abertamente o Tratado de Versalhes. A remilitarização da Renânia, a anexação da Áustria e a pressão sobre a Checoslováquia culminaram na invasão da Polónia, no dia 1 de setembro de 1939, dando início ao conflito. Do lado do Eixo alinharam Alemanha, Itália e Japão; do lado oposto, uma vasta coligação internacional, que incluiria os Estados Unidos, União Soviética e Reino Unido, acabando por impor a derrota do nazismo.
Os custos da guerra foram devastadores. Cerca de 60 milhões de pessoas perderam a vida, numa tragédia que atingiu tanto militares como, sobretudo, civis. O genocídio perpetrado pelos nazis contra os judeus e outros grupos marcou profundamente a consciência da humanidade. A destruição de cidades, infraestruturas e economias deixou a Europa em ruínas, com milhões de deslocados e um cenário generalizado de miséria e sofrimento.
Ainda antes do final da guerra, as grandes potências aliadas preparavam já o futuro. Na Conferência de Ialta, em fevereiro de 1945, definiram a divisão da Alemanha em zonas de ocupação e redesenharam o mapa da Europa de Leste. Mais tarde, em Potsdam, estabeleceram medidas como a desnazificação, o desarmamento alemão e o julgamento dos responsáveis pelos crimes de guerra. Paralelamente, consolidava-se a divisão da Europa em duas áreas de influência, ocidental e soviética, que daria origem à Guerra Fria.
Um dos principais resultados deste esforço foi a criação da Organização das Nações Unidas, formalizada em junho de 1945. A ONU surgiu com o propósito de garantir a paz, promover os direitos humanos e fomentar o desenvolvimento, corporizando a esperança de evitar novos conflitos à escala mundial.
Em Portugal, o impacto político do fim da guerra foi significativo, ainda que limitado. No próprio dia 8 de maio, António de Oliveira Salazar comentou o acontecimento na Assembleia Nacional, procurando adaptar o discurso do regime ao novo contexto internacional. Contudo, setores da oposição democrática viram na derrota das ditaduras europeias uma oportunidade para pressionar a mudança interna. Personalidades como António Sérgio e José Domingues dos Santos procuraram apoio junto das potências aliadas, enquanto outras organizações apelavam à intervenção internacional.
Essa expectativa refletiu-se também na dinamização de movimentos como o Movimento de Unidade Democrática (MUD), que procurou unir a oposição ao regime. A esperança era a de que o novo quadro internacional conduzisse à democratização do país. No entanto, apesar de algumas promessas de abertura, o essencial do sistema manteve-se: partido único, repressão política e limitação das liberdades.
Nas décadas seguintes, Portugal continuou a enfrentar dificuldades estruturais. A economia, pouco modernizada e ainda fortemente dependente da agricultura, não conseguia garantir níveis adequados de vida. A emigração tornou-se a única solução para muitos portugueses, que procuraram melhores condições de vida no estrangeiro, contribuindo, ao mesmo tempo, com remessas importantes para a economia nacional.
Assim, o 8 de maio de 1945 representou, à escala mundial, o triunfo sobre o totalitarismo e o início de uma nova ordem internacional. Em Portugal, porém, essa data ficou marcada por uma esperança que não se concretizou de imediato, revelando o desfasamento entre a evolução do mundo e a persistência de um regime que apenas terminaria em 1974. |

Maio 9, 2026 . 11:30

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