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Teatro do Botão reinventa a forma de chegar a todos os públicos

Sob o lema ‘Diversão e Diversidade, Inclusão e Sustentabilidade’, a Semana da Criança, que se realiza a partir de hoje e estende-se até dia 2 de junho, oferece “experiências enriquecedoras” para as crianças do concelho, envolvendo também as famílias, as escolas, as instituições e a comunidade em geral.

Nascido em 2024, na Marinha Grande, o Teatro do Botão assume-se como um projeto artístico com raízes no território e uma missão clara: democratizar o acesso à cultura. “Acreditamos que a cultura deve ser um direito e não um privilégio”, afirma a produtora Susana Rodrigues, sublinhando o compromisso da companhia com a descentralização cultural e a aproximação do teatro a públicos menos habituados a este tipo de oferta. 

Apesar de recente, o projeto dá continuidade a um percurso artístico já consolidado na região e desenvolve uma atividade diversificada, que cruza criação teatral, educação e património. Para além dos espetáculos, o Teatro do Botão promove oficinas de teatro para crianças, jovens e adultos, que culminam em apresentações públicas, e dinamiza visitas encenadas a museus, com o objetivo de tornar estes espaços “mais acessíveis e atrativos a públicos que não são os frequentadores habituais”. 

A estrutura da companhia é reduzida, mas dinâmica. Em trabalho contínuo, são três os elementos: Cristóvão Carvalheiro, responsável pela direção artística, encenação e interpretação; Maria Botas, que assegura a coordenação do serviço educativo; e Susana Rodrigues, na dramaturgia e produção. A equipa conta ainda com colaborações regulares, como a formadora Vânia Jordão e o coletivo Teatro Pirata. 

Um dos conceitos que define o projeto é o de “teatro portátil”. Na prática, trata-se de uma abordagem flexível que permite levar espetáculos a locais sem infraestruturas convencionais. “Criamos espetáculos leves e com poucas necessidades técnicas para que qualquer salão paroquial, museu, biblioteca ou escola possam ser lugar de teatro”, explica a produtora. “Na impossibilidade de levar o público ao espetáculo, levamos o espetáculo ao público”, acrescenta. 

Esta lógica está diretamente ligada ao combate às desigualdades no acesso à cultura, que a companhia reconhece como uma realidade persistente. “Públicos que não estão habituados ao consumo cultural não sentem a necessidade de preencher essa lacuna”, observa Susana Rodrigues, defendendo que as artes são essenciais para o desenvolvimento individual e social.  

“Numa altura em que as desigualdades e o discurso de ódio aumentam, as artes são a melhor ferramenta de combate e de promoção de inclusão e igualdade”, vinca. 

É precisamente na formação de públicos que o Teatro do Botão concentra grande parte do seu trabalho, sobretudo junto das gerações mais novas. A experiência tem revelado resultados significativos. “As crianças são um público que não para de nos surpreender”, afirma, recordando um espetáculo recente sobre o Terramoto de 1755, pensado para maiores de 12 anos, mas que captou a atenção de crianças entre os 3 e os 8 anos: “Estavam atentas, interessadas e a fazer perguntas no final”. 

O impacto vai além da fruição artística. A companhia identifica ganhos no desenvolvimento de competências sociais e cívicas, como a diminuição da timidez, o respeito pelo outro e o sentido de responsabilidade. Projetos como o trabalho com alunos com necessidades educativas específicas ou o espetáculo ‘Rua da Liberdade’, inspirado na revolução de 25 de Abril, mostram como o teatro pode ser também uma ferramenta de cidadania. 

Já a ligação ao território, neste caso à Marinha Grande, manifesta-se igualmente através de projetos centrados no património local. Em 2022, a convite do município, a equipa criou um espetáculo sobre a história do vidro em Portugal e da Marinha Grande, evocando figuras como D. João V, D. José I e Sebastião José de Carvalho e Melo, bem como a criação da Real Fábrica de Vidros por Guilherme Stephens. “Não nos ocorre melhor forma de fazer a ligação entre património histórico, cultural e industrial do que através do teatro”, afirma. 

Em pouco tempo, a companhia soma dezenas de apresentações e milhares de espectadores, um crescimento que atribui à forma como encara o teatro. “Procuramos novos ângulos e novas abordagens. Como chegar ao público hoje? Como estimular o pensamento crítico? É isso que nos motiva”, explica Susana Rodrigues. 

Apesar do reconhecimento, os desafios são significativos. A instabilidade financeira é uma constante, mas não é a única preocupação. “Há uma crescente desvalorização e uma falsa ideia de que criar espetáculos é simples e rápido”, aponta, alertando para a pressão dos prazos e para a falta de tempo para criação com a serenidade desejada. 

Quanto ao futuro, a ambição é estar “em todo o lado”, mas “com a valorização devida, claro”. Para já, o grupo encontra-se a trabalhar na nova criação ‘A Chiquérrima História de Alcanena’, um espetáculo itinerante que explora a história dos curtumes e da vila. 

No âmbito do Dia do Município da Marinha Grande, a companhia não terá presença, mas deixa uma reflexão sobre o papel da cultura no desenvolvimento local. “A cultura é o que dá a ver um território, por dentro e por fora”, afirma Susana Rodrigues, sublinhando que a identidade da Marinha Grande não se preserva apenas nos objetos, mas também nas histórias: “O teatro pode ser o lugar onde essas histórias ganham corpo, voz e emoção”. 

Para o Teatro do Botão, o caminho do futuro é claro e passa por afirmar o teatro como motor de desenvolvimento, coesão e identidade. “Um concelho com esta carga histórica merece uma estratégia cultural ambiciosa”, conclui.  

Maio 13, 2026 . 12:00

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