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Isabel Silvestre - com ela e por ela, Manhouce tornou-se sinónimo de cultura…

Maio 28, 2026 . 17:30
“Ouvi-la cantar é uma experiência mítica, quase de uma religiosidade maior, independentemente das palavras cantadas. É um cerimonial que raia as fronteiras do sagrado. O seu nome está marcado a letras de oiro, na história da cultura portuguesa do último meio século”.

Nos recentes prémios Play da Música Portuguesa, o seu nome foi referido – com reverência (a Professora Isabel Silvestre), quando anunciado “Moleirinha” do duo pop Karetus, como vencedor na categoria de Melhor Videoclip. O tema faz parte do álbum “Modas” que conta com as participações de Conan Osiris, Júlio Pereira e Isabel Silvestre, entre outros.
Como sempre, “no meio” da tradição, “no meio” da modernidade, está uma mulher sempre muito à frente do seu tempo, uma mulher de talento e de e com muita cultura.
Chama-se Isabel Gomes Silvestre, nasceu em Manhouce, São Pedro do Sul, há 85 anos (4 de março de 1941) e colocou a sua terra, a sua cultura, no mapa, ao formar em 1978, o Grupo de Cantares e Trajes de Manhouce.
Foi professora do ensino primário na sua aldeia, foi/é professora de arte e de cultura no mundo. Michel Giacometti ou Fernando Lopes Graça, dois nomes gigantes, estudiosos do mundo da música ou da música do (nosso) mundo, reconheceram e trataram a música e a cultura de Manhouce. A meio dos anos 80, Miguel Esteves Cardoso dizia no jornal Expresso, que Portugal tinha Amália Rodrigues e o Grupo de Cantares de Manhouce.
Ao descobri-la, Rão Kyao convida-a para concertos na Europa e EUA, mas seria em 1992 que a generalidade do país a conheceria: os GNR convidam-na para cantar “Pronuncia do Norte”, um êxito absoluto que se prolonga no famoso concerto da banda de Rui Reininho no Estádio de Alvalade, perante mais de 40.000 pessoas. Até hoje…
“Da magia do Coral de Manhouce se eleva, como uma branca auréola musical, a voz puríssima de Isabel Silvestre em que se ouve o marulhar das águas maternas da origem.”. As palavras são de Natália Correia e datadas de 1990.
Cantou António Variações, Rui Veloso, José Mário Branco, José Niza, João Gil e muitos outros. Gravou vários álbuns em nome próprio, dos quais destaco “A Portuguesa”, disco editado há precisamente 30 anos. Nele encontramos um magistral “Deolinda de Jesus”, mãe de Variações, “A Gente não lê”, as palavras de Carlos T, imortalizadas por Rui Veloso, “Menino de Oiro” do génio de José Afonso e vários temas do cancioneiro popular, como o religioso “Miraculosa Rainha dos Céus” (arrepiante interpretação) ou “A Portuguesa”.
O mundo pop rock foi buscá-la para o disco “As canções de António”, uma abordagem ao legado de António Variações, que a juntou a nomes como Resistência, Madredeus, Sérgio Godinho, Delfins, Mão Morta, Sitiados, Três Tristes Tigres, Santos e Pecadores e Ritual Tejo.
Palácio de Belém, Assembleia da República, Paço dos Duques de Bragança, Centro Cultural de Belém, Mosteiro dos Jerónimos, Centro Cultural Olga Cadaval foram locais emblemáticos nos quais cantou, em Portugal, e em 2005 o Presidente da República Jorge Sampaio, condecorou-a com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, nas comemorações do 10 de junho.
Isabel Silvestre foi Presidente da sua Junta de Freguesia, escreveu livros, participou no Hino da Expo 98, cantou por e para Timor, colaborou com quem mostrasse ligações às raízes populares, porque as suas raízes de Manhouce eram/são a sua prioridade na preservação para o futuro. Ouvi-la cantar é uma experiência mítica, quase de uma religiosidade maior, independentemente das palavras cantadas. É um cerimonial que raia as fronteiras do sagrado. O seu nome está marcado a letras de oiro, na história da cultura portuguesa do último meio século. Bom dia, Senhora Professora Isabel Silvestre.

Maio 28, 2026 . 17:30

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