
Fundação Jerónimo Martins investe 20 ME na reconstrução de instituições e habitações
A Fundação Jerónimo Martins vai investir 20 milhões de euros na reconstrução de mais de uma centena de instituições e habitações nos concelhos de Leiria, Marinha Grande e Ourém, severamente afetados pela depressão Kristin.
No programa, que prevê beneficiar cerca de 12 mil pessoas, estão abrangidos creches e lares, mas também estruturas de apoio a pessoas com deficiência e outras respostas sociais prioritárias, incluindo habitações de famílias vulneráveis identificadas pelas três autarquias.
A iniciativa foi apresentada ontem, no Centro Social Paroquial de Regueira de Pontes, instituição com prejuízos na ordem dos 500 mil euros devido ao mau tempo e que irá beneficiar deste programa.
Na ocasião, o diretor executivo da Fundação Jerónimo Martins, Miguel Herdade, adiantou que as primeiras obras no âmbito deste programa arrancam na próxima segunda-feira, dia 8, uma em cada um dos três concelhos.
“Este é um projeto de uma complexidade enorme, equipamentos que vão ter obras curtas e outros de grande complexidade, que poderão estender-se por mais de um ano”, declarou este responsável, garantindo que o objetivo é “celeridade dentro da segurança, qualidade técnica e conforto” que se quer dar aos beneficiários.
Para o responsável, este é um “projeto filantropo de grande escala e, provavelmente, sem precedentes na memória coletiva”.
Segundo Miguel Herdade, logo após a depressão Kristin, a Fundação foi para o terreno e notou que muitos trabalhadores do Grupo Jerónimo Martins (dono das lojas Pingo e Recheio) precisavam de apoio.
“Nos primeiros sete dias depois da tempestade, a Fundação fez chegar mais de três milhões de euros a cerca de 250 colaboradores do grupo que estavam a precisar de apoio imediato”, realçou, além de ter sido disponibilizado um milhão de euros à Estrutura de Missão para a Recuperação da Região Centro.
“Nós conhecíamos o terreno e conhecíamos as enormes dificuldades que as pessoas passavam. E, por conhecermos a dimensão extrema dos estragos e as dificuldades muito complexas e de grande vulnerabilidade que eram sentidas, decidimos então alargar este apoio às comunidades”, justificou o diretor executivo.
Em abril e maio, em estreita colaboração com os municípios de Leiria, Marinha Grande e Ourém, e com a Estrutura de Missão, foi feito “um levantamento social muito profundo, técnico e rigoroso”, tendo sido visitadas 35 freguesias e mais de 140 instituições privadas, além da consulta a diversas entidades, como a Cáritas ou a Fundação Gulbenkian.
Feito o levantamento, a Fundação está “disponível para a reconstrução de creches, lares, equipamentos para pessoas com deficiência, habitações de famílias” que tenham sido sinalizadas e validadas, “e bombeiros e forças de segurança no que necessitem”.
“Foi estabelecida como prioridade inicial as creches e lares”, afirmou Miguel Herdade, frisando que “a prioridade e validação é feita em estreita articulação” com as autarquias e Estrutura de Missão.
Este responsável explicou que o “programa envolve mais de 100 instituições e equipamentos” e “existem também mais de 140 habitações de famílias que foram sinalizadas a precisar de obras de construção e para as quais a Fundação está disposta a apoiar”.
Miguel Herdade especificou que a Fundação constituiu uma equipa técnica especializada em engenharia e construção que atuará no terreno e que este se trata de um programa de apoio cujo financiamento é de natureza 100% privada, sem recurso a dinheiro público.
“Primeiro PTRR filantropo e privado do país”
O presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, referiu que este é o primeiro PTRR “filantropo e privado do país”, numa alusão ao programa do Governo Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência, e elogiou a “capacidade financeira e de rapidez em resolver o problema imediato das pessoas”, desejando que esta “constitua uma boa prática” para outras fundações.
Visivelmente emocionado, o presidente do município da Marinha Grande, Paulo Vicente, destacou a “dimensão humana” dos técnicos da Fundação, reconhecendo ser obrigação da autarquia colaborar com aquela que está “a minorar o sofrimento” das populações.
O autarca confidenciou ainda que não estavam habituados a “haver uma estrutura tão competente e humana” como as equipas da Fundação.
Por seu turno, o presidente da Câmara de Ourém, Luís Albuquerque, admitiu que o “único fator positivo” da tragédia de 28 de janeiro foi a solidariedade e união da população do concelho, mas também de autarquias, instituições e cidadãos anónimos de todo o país, agradecendo a ajuda da Fundação.
O coordenador da Estrutura de Missão, Paulo Fernandes, declarou que “as instituições não valem por si, mas na medida em que servem pessoas, comunidades”, valorizando o que designou de um dos “maiores programas de sempre da filantropia”.
A presidente do Conselho de Administração da Fundação Jerónimo Martins, Marta Lopes Maia, referiu que se trata de uma “parceria inédita” entre sociedade civil, iniciativa privada e poder público, e disse acreditar que “vai mudar a vida e transformar a vida de muitas das pessoas que continuam a ter muitas dificuldades nesta região”.
“Muitas das áreas florestais perderam cerca de 70% da sua floresta”
A limpeza das áreas florestais devastadas pela depressão Kristin continua a ser um dos maiores desafios da recuperação da região.
Questionado sobre a limpeza dos terrenos, o presidente da Estrutura de Missão para a Recuperação da Região Centro, Paulo Fernandes, referiu que há zonas onde se perdeu cerca de 70% da cobertura florestal, deixando. “É terrível. É um vale dos caídos, é um cemitério de árvores”, afirmou o responsável.
Paulo Fernandes adiantou que o Exército já está no terreno, em articulação com a Proteção Civil e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), para apoiar os trabalhos de limpeza, desobstrução e mitigação de riscos. “Estamos a monitorizar a evolução dos trabalhos”, referiu, reconhecendo a dimensão da tarefa que está pela frente.
Durante a conferência de imprensa, Paulo Fernandes foi também confrontado com as críticas e trocas de responsabilidades entre Governo e autarquias relativamente aos atrasos na atribuição dos apoios às populações afetadas.
Sem entrar em polémicas, Paulo Fernandes optou por não comentar diretamente a questão. A resposta acabou por ser dada pelo presidente da Câmara de Ourém, Luís Albuquerque, que considerou que “as duas partes têm razão”. “O Governo disponibilizou de imediato 60 a 70 milhões de euros às CCDR para que o dinheiro pudesse chegar rapidamente às pessoas”, afirmou o autarca. Por outro lado, lembrou que os municípios tiveram que “iniciar todo um procedimento que era novo”. No caso de Ourém, foram submetidos 3.858 pedidos de ajuda. Destes, cerca de 2.400 já foram pagos, enquanto 700 foram indeferidos.
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