Como se diz adeus a um amigo? – Em memória da Manecas
Quando observamos o curso natural da vida, percebemos que existe um ciclo inevitável. Nascemos, crescemos, mudamos, definhamos… partimos. Sabemos isto de forma racional. Porém, há perdas para as quais nenhum enquadramento lógico nos prepara, sobretudo quando falamos de uma morte que chega muito antes do seu devido tempo, quando havia, ainda, muitos sonhos para cumprir e vida para viver.
Neste mês não consegui ter outro tema para esta crónica que não, exatamente, o da perda. Depois de alguns meses (poucos, muitos menos do que alguma vez imaginei) de angústia e de despedidas a conta-gotas, morreu-me uma das minhas melhores amigas.
Neste tempo que mediou a ‘notícia-bomba’ do seu desfecho, procurei respostas. Segui o extraordinário podcast All There Is, de Anderson Cooper. Ouvi testemunhos sobre perda nas sessões do The Moth. Li romances, memórias, artigos técnicos sobre luto, amizade e psico-oncologia. Procurei explicações, modelos de compreensão, alguma espécie de orientação espiritual, validação para a turbulência emocional que, por vezes, tomou conta dos meus dias. Agora, procuro estratégias para lidar com esta ausência e com a novidade de tal vazio. Mas nenhuma leitura conseguiu, ainda, verdadeiramente responder à pergunta que permanece: como se diz adeus a um amigo?
Há uma frase de Sónia Morais, escrita a propósito da sua crítica ao livro Debaixo de Água, de Tara Menon, que ficou a ecoar dentro de mim desde o momento em que a li: “O luto dos amigos não tem nome. Não se fica órfão, não se fica viúvo. Parece não ter o mesmo peso que outros lutos e, no entanto, não nos cansamos de usar a expressão batida ‘os amigos são a família que escolhemos’.”
Talvez seja precisamente essa ausência de nome que torne esta dor tão difícil de explicar. Porque há amigos que transcendem a definição convencional da amizade. São irmãos por escolha, inquilinos permanentes das nossas memórias, guardiões dos segredos que não contamos a mais ninguém, amparo nos dias difíceis, testemunhas dos nossos fracassos e das nossas conquistas, pessoas que conhecem as versões mais frágeis e mais luminosas de quem somos.
Quando partem, com ou sem aviso prévio, algo se estilhaça. Desaparece uma parte da nossa história partilhada e um silêncio instala-se, onde antes havia uma voz familiar. Há poucos dias dei por mim a, instintivamente, querer partilhar uma notícia que vira no feed das redes socias, cujo mote trazia uma piada só nossa em anexo. Precisei de alguns instantes para cair em mim. Como uma bofetada inesperada e seca, daquelas que deixam a marca vermelha na pele, a realidade acertou-me em cheio: ‘Não. Não posso enviar. Ela já não está cá’. Já não está cá… mas continua aqui.
Talvez o trabalho do luto seja precisamente este: o de recolher os fragmentos. Juntar os cacos com a delicadeza possível e colá-los com memórias, gargalhadas, fotografias, músicas, conversas e gestos que resistem ao tempo. Um exercício de kintsugi para o coração, em que as fissuras não desaparecem, mas se transformam em marcas preciosas desta coisa que é a vida.
Como escreve Pessoa:
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
Talvez dizer adeus não seja esquecer. Talvez seja ‘só’ aprender a continuar o caminho, celebrando quem será sempre luz, vida, esperança, cor, música, energia e primavera em nós. E os pássaros sempre voltarão...





