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Proclamação da vitória do Golpe Militar de 1926

Junho 7, 2026 . 10:00
Opinião de Manuel Augusto Dias: "As sucessivas crises governativas, a instabilidade parlamentar, as dificuldades económicas e os conflitos sociais geravam um clima de descontentamento generalizado"

No dia 6 de junho de 1926, há exatamente cem anos, desfilavam em Lisboa as forças militares que haviam desencadeado, dias antes, o movimento iniciado em Braga a 28 de Maio. A Parada Triunfal na capital simbolizou a vitória definitiva do golpe militar e marcou o início de um novo ciclo da história portuguesa. Apesar dos discursos dos revolucionários declararem fidelidade à Constituição e à República, a verdade é que terminava a Primeira República e começava a Ditadura Militar, que viria a evoluir para o Estado Novo, regime autoritário que se manteria no poder até à Revolução de Abril de 1974.
A evocação desta data convida a uma reflexão serena sobre um dos momentos decisivos da história contemporânea portuguesa. A Primeira República atravessava então um período de forte desgaste político e social. Apesar de alguns indicadores revelarem melhorias a partir de 1923 – nomeadamente a redução do défice, um maior controlo da dívida pública, a estabilização monetária e progressos no combate ao analfabetismo – o regime enfrentava crescentes dificuldades.
As sucessivas crises governativas, a instabilidade parlamentar, as dificuldades económicas e os conflitos sociais geravam um clima de descontentamento generalizado. Muitos trabalhadores urbanos sentiam-se frustrados com os resultados alcançados pela República, enquanto importantes setores das classes médias viam com preocupação o crescimento dos movimentos revolucionários inspirados pelo anarquismo e pelo bolchevismo.
Neste contexto, o Golpe Militar encontrou apoios significativos em diversos setores da sociedade portuguesa. A promessa de ordem, estabilidade e autoridade surgia, para muitos, como resposta aos problemas que o país enfrentava. O contexto internacional também favorecia este tipo de soluções políticas. Em vários países europeus afirmavam-se regimes autoritários que apresentavam a democracia parlamentar como incapaz de resolver os desafios económicos e sociais do seu tempo.
Contudo, aquilo que inicialmente surgiu como uma intervenção militar destinada a restaurar a ordem acabou por abrir caminho a uma transformação muito mais profunda. Como recordou recentemente o historiador Ricardo Silva, num podcast divulgado pelo jornal Expresso, o movimento de 28 de Maio não foi concebido inicialmente para colocar António de Oliveira Salazar no poder. Porém, as circunstâncias políticas criadas pelo golpe permitiram a sua ascensão e a construção gradual de um regime que dominaria a vida portuguesa durante quase meio século.
Salazar assumiu a pasta das Finanças em 1928 e rapidamente se tornou a figura central do regime. Em 1933 era aprovada uma nova Constituição que institucionalizava o Estado Novo. A partir daí consolidou-se um sistema político assente no partido único – a União Nacional, na censura à imprensa, na limitação das liberdades políticas e na ação da polícia política, que ao longo dos anos assumiu diferentes designações, sendo a mais conhecida a PIDE.
O regime desenvolveu igualmente um vasto aparelho de enquadramento ideológico e de propaganda. Surgiram organizações como a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa, enquanto o Secretariado de Propaganda Nacional procurava difundir a imagem de um país unido em torno do seu chefe. Salazar foi frequentemente apresentado como o “Salvador da Pátria”, numa lógica de culto da personalidade que encontrava paralelos noutros regimes autoritários europeus da época.
É verdade que durante estas décadas Portugal conheceu algumas realizações importantes no domínio das infraestruturas, da educação, das comunicações e da estabilidade financeira. Mas a história recorda-nos igualmente o outro lado da realidade: a ausência de eleições livres, a perseguição de opositores políticos, a censura, as prisões por delito de opinião e a limitação dos direitos fundamentais dos cidadãos.

Junho 7, 2026 . 10:00

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