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Opinião: E o tempo vai passando…

Junho 27, 2026 . 17:00
Opinião de João Mota Campos "O governo criou um ministério para a reforma do estado. Até hoje ainda ninguém viu qualquer proposta simples ou mais ambiciosa que esse ministério tivesse lançado."

O actual governo vai para cerca de dois anos, ainda que com umas eleições pelo meio, que não mudaram nada.
Antes deste havia outro, socialista, que com várias eleições pelo meio, governou entre 2015 a 2024, e não mudou nada a não ser para pior.
O governo de agora é apoiado por 89 deputados do PSD e 2 deputados do CDS. É a AD.
Longe de uma maioria, o governo está encurralado entre os 60 deputados do Chega e os 58 deputados do PS. Em boa verdade, o governo não pode levar a cabo qualquer reforma de fundo, ou até mesmo superficial, se não contar com o apoio de um ou outro destes grupos à sua direita e à sua esquerda. Aparentemente, não conta com nenhum e portanto, não pode aprovar reforma nenhuma.
É aquilo a que se chama “stasis”, ou seja, um estado de equilíbrio em que forças iguais se opõem, resultando num sistema completamente parado.
Esta é a realidade aparente, mas muitos, à direita, pretendem que o governo e a sua maioria de apoio estão antes em estado de abulia, ou seja, a condição em que ocorre uma perda severa de iniciativa, vontade ou motivação para realizar acções. Há quem sustente que o governo se limita a uma gestão do quotidiano, e que o seu único objectivo real é o de manter o poder, em detrimento de qualquer esforço reformista.
O próprio governo expende a ideia de que está pacientemente à espera da sua oportunidade para agir e que no entretanto não está parado. Sinceramente, lembra-me um pouco aquela anedota que se contava sobre o Bocage, que tendo um dia fugido nu de casa de uma amante cujo marido apareceu inopinadamente, se escondeu dentro de uma barrica. Alguém que o viu perguntou-lhe o que estava a fazer nu dentro da barrica e o Bocage respondeu que estava à espera da última moda para saber o que haveria de vestir…
A verdade é que não é preciso estar à espera da última moda para agir em muitos domínios. Por exemplo, foi lançada a iniciativa da “Água que Une”, para garantir “uma gestão mais eficiente, resiliente e inteligente (da água) conciliando as necessidades da agricultura, do ambiente e da população” (jargão de burocratas, não meu).
Não é preciso esgravatar muito para ver o que dá essa estratégia tão inteligente: há muito poucos dias o presidente de uma junta de freguesia (Ameixial, do Concelho de Tavira, onde todos os anos há, no verão, terríveis incêndios) se queixava amargamente na televisão de que uma barragem que teria sido imensamente útil para abastecer de água os auto tanques que combatiam um incêndio, não tinha sido construída porque o ICNF não tinha autorizado. O ICNF é o Instituto de conservação da natureza e florestas. Os burocratas mandam e os incêndios florescem. Destes exemplos, qualquer um de nós pode dar vários sem pensar muito.
Na maior parte das vezes – todas, na verdade – a acção do estado parece resumir-se a um único propósito: entorpecer a acção da sociedade, a iniciativa individual, a marcha regular e útil dos negócios e da vida.
O governo criou um ministério para a reforma do estado. Até hoje ainda ninguém viu qualquer proposta simples ou mais ambiciosa que esse ministério tivesse lançado. Fala-se de coisas, diz-se que vêm aí coisas, mas “coisas” mesmo, nada.
O governo parecia ter apostado tudo numa reforma do código do trabalho. Toda a gente sabia que estaria morta à chegada, mesmo sem a demagogia do Chega sobre a redução da idade da reforma, uma daquelas exigências irresponsáveis que só quem nunca governou, nem conta governar, se atreveria a fazer. Devidamente morta essa reforma, caiu sobre a AD uma aparente manta de desânimo reformista.
Nada que espantar: em oito anos de oposição o PSD não foi capaz de articular um conjunto coerente de reformas de fundo em matéria de educação, saúde ou justiça, sistema fiscal ou desregulamentação, que pudesse ter submetido em eleições para as fazer sufragar.
Chegado ao poder limita-se a lidar com a gestão do quotidiano, que é de facto muito exigente nos tempos que correm, sem aparentar qualquer propósito de mudar verdadeiramente o que seja no horizonte nacional.
Escusado seria dizer, mas assim não vamos lá. Se este governo durar quatro anos, até 2028, e não mudar de rumo e estratégia, chegaremos a 2028 em tão bom estado como em 2024.
Soubemos entretanto que graças à politica de imigração de portas abertas do PS, somos agora 11,5 milhões de habitantes, e que os números do PIB per capita estavam todos errados e somos de facto mais pobres do que o que já eramos. 1,5 milhões de gente a mais nunca foi tomado em consideração no desenho das politicas sociais, de habitação, de saúde ou de educação. É a navegação à vista.
Andamos nisto há 50 anos, com raros interregnos e o tempo vai passando…

Junho 27, 2026 . 17:00

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