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Eugénia Melo e Castro – Talento, elegância e charme na “ligação” atlântica

Julho 9, 2026 . 17:30
Opinião: "Abordar a obra de Eugénia Melo e Castro, pode ser um exercício tão longo quanto fascinante, descobrir ou redescobrir a sua obra, de mais de uma dezena de discos".

Será porventura a protagonista (primeira e) maior de uma ligação musical e poética com os maiores vultos da música brasileira.
Decorria o ano de 1982, quando “Terra de Mel”, o disco de estreia de uma jovem de 24 anos, chegava, conquistava o título de Melhor disco do Ano e sua autora era considerada a Revelação do Ano. Assim, de repente, sem barulhos excessivos, mas com a elegância, o charme, a discrição e o (muito) talento a que não estávamos habituados. O disco tinha a chancela de Wagner Tiso (nome maior da música no Brasil) e agitou as águas dos dois mercados discográficos.
Seguiu-se “Águas de todo o ano”, em 1983, álbum que consolidaria o nome de Eugénia de Melo e Castro, e que trazia “Dança da Lua”, um dueto fantástico, com o não menos fantástico Ney Matogrosso.
Para trás – nos anos 70 - tinham ficado uma discreta passagem pelo teatro e umas participações em discos de nomes como José Afonso, Vitorino ou Sérgio Godinho, para além de uma passagem pela London Film School, na capital britânica, para além da influência que uns pais escritores e poetas (Ernesto de Melo e Castro e Maria Alberta Menéres) podem deixar….
Mas o Brasil tinha deixado marcas que seriam para sempre. Como EMC escreve no booklet do seu disco “30 anos, canta, canta mais.”… “A primeira viagem ao Brasil foi exatamente o que tinha imaginado. A alegria, a música, as pessoas, as casas, as ruas, tudo era como eu tinha lido, ouvido, imaginado”
E acrescenta: “Inventei esta vida assim, com um oceano plantado pelo meio, imenso de possibilidades, riscos e distâncias, proximidades e diferenças, entre os meus dois mundos. Misturo músicas e músicos, timbres e talentos, vozes e épocas, idades e instrumentos, influências e ritmos”.
E está tudo dito, pode começar o desfile das… misturas: Alberto Janes, Fernando Pessoa, Caetano Veloso, Gonzaguinha, José Afonso, Milton Nascimento, Chico Buarque, Wagner Tiso, Mário Laginha, Ronaldo Bastos, Tom Jobim, Ernesto de Mello e Castro são parte do caldeirão de nomes dos compositores e poetas, e as parcerias vocais, ou duetos, como preferirem, o luxo não é menor: Tom Jobim, Ney Matogrosso, Chico Buarque, Caetano Veloso, Adriana Calcanhoto, Milton Nascimento, Paulo Jobim, Gal Costa, Egberto Gismonti, Simone, Carlos Lyra, Gonzaguinha.
Se a “nata” da música e dos músicos do Brasil, a recebeu de braços escancarados e com os maiores elogios, Eugénia de Melo e Castro, na linha da mistura dos seus dois mundos, olhou para a história da música portuguesa e juntou no álbum “Amor é cego e vê” (1990), temas originalmente gravados entre 1907 e 1960, por nomes como Amália Rodrigues, Francisco José, Tomáz Alcaide, Luiz Piçarra ou Corina Freire e reinterpretou-os novamente com os seus amigos do outro lado do atlântico. E assim temos Caetano Veloso a cantar em “Olhos Castanhos”, Milton Nascimento em “O amor é cego e vê”, Chico Buarque em “Contrastes”, Gal Costa em “Quando a tua boca beija”, Simone em “Caminho errado” e Ney Matogrosso no incontornável “Foi Deus”.
Abordar a obra de Eugénia Melo e Castro, pode ser um exercício tão longo quanto fascinante, descobrir ou redescobrir a sua obra, de mais de uma dezena de discos, incluindo algumas coletâneas, é uma viagem pela mistura das duas culturas (referidas pela EMC), viagem com uma serenidade e elegância raras neste universo musical.

Julho 9, 2026 . 17:30

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