Última Hora

A Revolução Silenciosa que Mudou Portugal

Junho 8, 2025 . 10:00
Opinião: "A Primeira República, implantada em 1910 com grandes expectativas de modernização e democratização, revelou-se rapidamente um sistema marcado pela instabilidade política, sucessivos governos, divisões internas e crises económicas, que se agravaram no pós-Guerra"

No dia 6 de Junho de 1926, há 99 anos, consumava-se a mudança de regime em Portugal, na sequência da Marcha Militar liderada pelo general Gomes da Costa, que partira de Braga a 28 de Maio. Com a proclamação oficial da vitória do golpe, o país entrava numa nova era política – chegava ao fim a instável Primeira República, dando lugar à Ditadura Nacional.
O novo regime viria a consolidar-se em 1933 sob a designação de Estado Novo, liderado por Oliveira Salazar, como Presidente do Conselho.
A Primeira República, implantada em 1910 com grandes expectativas de modernização e democratização, revelou-se rapidamente um sistema marcado pela instabilidade política, sucessivos governos, divisões internas e crises económicas, que se agravaram no pós-Guerra. Ainda que, a partir de 1923, se notassem melhorias em indicadores como o défice público, a estabilização da moeda e a luta contra o analfabetismo, os efeitos dessas reformas estavam longe de ser sentidos de forma generalizada. As classes trabalhadoras urbanas, desiludidas com as promessas republicanas, e a burguesia e classe média, temerosas do avanço do anarquismo e do bolchevismo, foram terreno fértil para o apoio à intervenção militar. A instabilidade interna, somada à ascensão de regimes autoritários no plano internacional, criou o ambiente ideal para o sucesso do golpe de 28 de Maio, que muitos sectores da sociedade passaram a considerar uma “Revolução Nacional”. A imprensa, fiel reflexo do pulsar político da época, registou o momento com diferentes tons e perspectivas. No semanário O Mensageiro, publicado em Leiria e dirigido pelo Padre Lacerda – declarado opositor do regime republicano –, as notícias davam conta do entusiasmo com a mudança de regime. Na edição de 29 de Maio de 1926, ainda antes da proclamação oficial da vitória, o jornal escrevia:
“O Exército vai tentar acabar, como em Espanha, com as quadrilhas políticas.” O texto assumia uma postura céptica – tantas tinham sido as revoltas mal sucedidas – quanto ao êxito do movimento, mas reconhecia o desgaste do sistema republicano e a necessidade de mudança.
Poucos dias depois, na edição de 5 de Junho, a mesma publicação mostrava-se já convicta da importância histórica do momento: “Portugal acaba de ser teatro dum movimento político que tem, ao contrário de todos os outros, a grandeza política e moral de não ter causado mortes.”
A 12 de Junho, porém, surgia um tom de alerta. Sob o título “Cautela, Senhor General!”, o jornal advertia para os perigos do excesso de confiança e pedia vigilância: “As prevenções devem ser ainda a ordem diária dos que prometeram redimir a nossa Pátria.” O novo regime afirmava-se, à partida, como restaurador da ordem e estabilidade. Contudo, o que se seguiu foi uma longa ditadura de cariz autoritário, que viria a adoptar muitos dos traços típicos do fascismo europeu: partido único, censura à imprensa, polícia política (a temida PIDE), culto da personalidade e uma máquina de propaganda sofisticada.
A figura dominante deste novo Portugal foi Salazar, inicialmente Ministro das Finanças e mais tarde Presidente do Conselho, cargo que exerceu entre 1932 e 1968. Com uma política assente no conservadorismo católico, no corporativismo e na repressão, Salazar impôs uma visão de Estado centralizado e autoritário, apresentando-se como o “Salvador da Pátria”.
Durante o Estado Novo, surgiram também os instrumentos de controlo social e ideológico: a Mocidade Portuguesa, a Legião Portuguesa, a FNAT (que organizava atividades recreativas e de lazer para os trabalhadores) e o Secretariado de Propaganda Nacional. A Exposição do Mundo Português, realizada em 1940, foi o ponto alto da glorificação do regime e da sua narrativa imperial.
Enquanto isso, os ventos de modernidade cultural que sopravam na Europa chegavam lentamente a Portugal. Ainda assim, desde 1915, nomes como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros já lançavam sementes de inconformismo que floresceriam, muito mais tarde, em resistência cultural ao regime.
O Golpe de 1926 não foi apenas o fim da Primeira República, foi o início de um longo período de silêncio, de medo e de censura – mas também de resistência latente. Um momento que mudou para sempre o curso da história portuguesa.

Junho 8, 2025 . 10:00

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
94 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right