Última Hora

Momento de viragem

Setembro 14, 2025 . 17:00
Opinião: "O próximo ato eleitoral pode assim marcar um ponto de viragem. Portugal tem diante de si a oportunidade de romper com a estagnação e iniciar um ciclo de renovação democrática e económica. Para isso, será necessário ultrapassar a lógica de ataques pessoais e recentrar o debate nas soluções que realmente podem transformar o país."

Estamos a entrar num ciclo eleitoral decisivo para o futuro político e social de Portugal. As próximas eleições autárquicas não são apenas uma disputa local: podem redefinir o equilíbrio de forças no país e abrir caminho a mudanças estruturais profundas. O ambiente que antecede este momento, por essa mesma perceção, é marcado por uma crispação inédita, onde insultos e ataques pessoais substituem o debate de ideias. Esta degradação do espaço público mina a confiança no sistema democrático e dificulta a construção de consensos que o país urgentemente necessita.

A degradação do debate político
Assistimos a uma escalada de acusações e tentativas de destruição de reputações que atravessa todo o espectro partidário. O caso de Carlos Moedas é paradigmático, como é o caso da Faculdade de Medicina do Porto. O confronto deixou de ser sobre propostas e factos, e passou a ser sobre ataques pessoais. Este clima não apenas afasta os cidadãos da política, como também enfraquece a credibilidade das instituições. Sem respeito pelas regras do jogo democrático, torna-se impossível discutir com serenidade as reformas estruturais que poderiam e deveriam devolver dinamismo à economia e eficiência ao Estado.

O sistema político em transição
Desde a Revolução de 1974, o poder tem sido dominado pela alternância entre os dois maiores partidos, apoiados pontualmente por formações menores. Contudo, a paisagem política mudou em 2019 com a ascensão do Chega. Em apenas quatro anos, o partido passou de um deputado para 50, um crescimento sem precedentes na democracia portuguesa. Apesar de ainda ter uma presença autárquica residual — apenas 19 eleitos em milhares de mandatos — as eleições de 12 de outubro podem alterar radicalmente esse quadro. Se o Chega conseguir replicar nas autarquias a dimensão do seu resultado nas legislativas, tornar-se-á inevitável em qualquer solução governativa. Mais ainda: poderá consolidar uma maioria capaz de influenciar a revisão da Constituição e suscitar a oportunidade aos partidos da direita democrática para um diálogo estratégico sobre o futuro do país.

Reformas estruturais inadiáveis
Portugal enfrenta desafios profundos em áreas vitais como Saúde, Justiça, Educação, Segurança Social e Energia. A dimensão excessiva e ineficiente do Estado trava a capacidade de resposta e sufoca a iniciativa da sociedade civil. Uma reforma que torne o Estado mais ágil e focado nas suas funções inalienáveis de soberania, deixando para a Sociedade Civil a prestação de serviços nas restantes áreas, é essencial para libertar recursos e estimular a prosperidade.
Entre as mudanças mais urgentes está a reforma do sistema eleitoral. O modelo atual privilegia a obediência aos líderes partidários em detrimento da ligação direta entre eleitos e eleitores. É necessário aproximar os representantes dos seus círculos eleitorais, reforçando a responsabilidade política e a qualidade da democracia.

Um apelo à qualidade democrática
É precisamente esse o objetivo do manifesto “Por uma Democracia de Qualidade”, subscrito por diversos cidadãos, que há anos defende um sistema político mais transparente, responsável e próximo dos portugueses. A insistência nesta agenda é um sinal de que a sociedade civil não desistiu de exigir reformas que devolvam credibilidade à política.
O próximo ato eleitoral pode assim marcar um ponto de viragem. Portugal tem diante de si a oportunidade de romper com a estagnação e iniciar um ciclo de renovação democrática e económica. Para isso, será necessário ultrapassar a lógica de ataques pessoais e recentrar o debate nas soluções que realmente podem transformar o país.
Este é o momento de escolher entre a continuidade da degradação política ou a construção de um caminho de reformas que devolva confiança, eficácia e esperança à democracia portuguesa.

Setembro 14, 2025 . 17:00

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
94 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right