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O Retrato de Chimamanda

Outubro 5, 2025 . 13:30
Opinião: "Seguir uma única narrativa, cria estereótipos, pela generalização simplificada e muitas vezes rígida sobre as características, comportamentos ou valores de um grupo social".

Até há pouco tempo, apenas conhecia o nome de Chimamanda Adichie por, um certo dia, ter folheado um livro seu, que encabeçava uma das pilhas de livros dispostas no expositor de uma livraria. Destacava-se pela capa colorida e pelo título apelativo para quem, como eu, aprecia flores e cores vivas. Tratava-se de «A cor do hibisco». Li-lhe o nome devagar, soletrando, mentalmente cada sílaba, estranhando-lhe a atípica sonoridade ‘Chi-ma-man-da Ngo-zi A-di-chie. Será Xi? Será Tchi?’ - pensei. Confesso que, ato contínuo, me assomou a imagem criada pela minha cabeça, de uma mulher madura, de tez escura e brilhante, forte, trajando um vestido longo e largo, de padrão laranja, rosa e amarelo, usando um igualmente incrível e espampanante «gele» na cabeça.
Entretanto, ‘conheci’ a ‘verdadeira’ Chimamanda, por intermédio de uma incrível TED Talk… e percebi que se trata de uma mulher jovem, moderna, de calças de ganga informais. O título desta sua comunicação- «O perigo de uma única história», serviu-me, por si só, de mote para uma reflexão alargada. Depois, em breves minutos, Chimamanda expõe o poder que a criação e repetição de uma versão/história, baseada numa única perspetiva e em informações parcelares ou descontextualizadas, tem na construção que fazemos da imagem de alguém ou representação social de um grupo, povo, país ou, mesmo, continente. E fez-me pensar no retrato que criei da escritora e no ‘pré-conceito’ estruturado a partir de um mero nome e de uma capa de livro.
Partindo de uma série de referências pessoais, Chimamanda desafia-nos a colocarmo-nos em perspetiva e a apurarmos o sentido crítico sobre aquilo que somos e fazemos, pondo em causa as nossas próprias crenças, ações e reações. Creio que será neste movimento constante de humilde questionamento que poderemos crescer enquanto Pessoas, atendendo às múltiplas histórias e visões de todos e de cada um, na construção de uma versão mais justa do mundo e da sociedade.
Seguir uma única narrativa, cria estereótipos, pela generalização simplificada e muitas vezes rígida sobre as características, comportamentos ou valores de um grupo social. Um estereótipo será sempre um estereótipo… e são estes a base cognitiva do preconceito - um julgamento/atitude, podendo envolver emoções como o desprezo, o medo ou a hostilidade.
Em tempos como os atuais, em que assistimos à radicalização de discursos e ao crescimento de forças políticas que pregam um discurso impregnado em fake news, ideais racistas, xenófobos e misóginos, urge esta reflexão coletiva. Como é que as ‘histórias’ que ouvimos nos são contadas, quem as conta, quando são contadas e quantas histórias e visões nos chegam?
«O poder é a capacidade de contar a história de outra pessoa, tornando-a na história definitiva da outra pessoa», diz Chimamanda. Como diria o radialista, vale a pena pensar nisto…

Outubro 5, 2025 . 13:30

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