Uma perfeita e acabada democracia
Pelo que se vai vendo, ouvindo e lendo, Portugal é um país perfeito. E, se é perfeito, não se lhe pode tocar. Para início de conversa, a Constituição é sagrada. Mexer na Constituição é profanar o legado do 25 de Abril e a geração que a moldou.
As leis do trabalho são exemplares. Bulir nelas é um atentado aos direitos dos trabalhadores.
A lei da greve é intocável. Permite a supressão fácil e tantas vezes arbitrária de serviços essenciais, transportes, escolas, hospitais, justiça, muitas vezes sem obrigatoriedade de qualquer serviço mínimo, prejudicando centenas de milhares de cidadãos e causando prejuízos irrecuperáveis na economia, mas isso é que está certo
O sistema de justiça é irrepreensível. Qualquer leve tanger iria governamentalizar o sistema. A eternização das investigações, a quebra do segredo de justiça, a demora dos julgamentos, o entrave aos direitos pessoais e à economia são pura ficção.
A lei dos solos é modelar. Exige-se habitação, mas torpedeia-se qualquer libertação de terrenos não produtivos, por suspeita imediata de especulação.
O sector agrícola satisfaz as necessidades. Novas culturas e plantações são combatidas, por desequilibrarem os ecossistemas.
Explorações mineiras, já há que baste. Quaisquer outras prejudicam a afectuosa relação com a natureza e atentam ao ambiente. E há que pedir indemnizações aos romanos pelas feridas que a extracção do ouro, chumbo estanho e prata provocaram na paisagem.
A política energética é inatacável. Há que seguir os dogmas e pregadores da nova religião ambiental, custe o que custar à competitividade da economia e às famílias.
Qualquer ponte, viaduto, rede viária ou eléctrica atenta ao conforto das aves, tornado prioritário em relação ao bem-estar dos humanos.
Novas privatizações ou concessões são combatidas, por defesa da economia ou da independência nacional. Curioso é que os sindicatos que mais greves promovem são os da função pública e os das empresas estatais. São contra o patrão, mas não querem mudar de patrão.
E assim, todos juntos, extremistas, sindicalistas, burocratas e activistas, artistas, associações ad hoc, personalidades eméritas vão traçando limites ao poder soberano eleito e fazem prevalecer interesses corporativos sobre o interesse geral. E quem resiste às normas do vício e da virtude assim implantadas é herege.
A democracia portuguesa atingiu o expoente do contraditório: as minorias mandam, as maiorias calam, os poderes consentem. Não é tempo de inverter tão antidemocrática situação?|





