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Grande Terramoto de 1755 também ‘abalou’ a região de Leiria

O terramoto que devastou Lisboa a 1 de novembro de 1755 não poupou o resto do país. Também na região de Leiria, o abalo foi fortemente sentido, deixando marcas em várias habitações, igrejas e monumentos. Na véspera de se assinalarem 270 anos desta catástrofe, o historiador Saul António Gomes recorda o impacto do abalo no território.

O relógio marcava as 09h40 do dia 1 de Novembro de 1755 - dia de Todos os Santos - quando Portugal foi abalado por uma das maiores catástrofes até hoje sofridas. Os sismólogos estimam que o terramoto tenha atingido a magnitude entre 8,7 a 9 na escala de Richter. Para além da destruição quase total de Lisboa, o terramoto provocou um tsunami, com ondas de cerca de 5 metros de altura vindas do rio Tejo, que inundaram a zona ribeirinha da cidade. Ao mesmo tempo, deflagraram inúmeros incêndios, originados pelos fogões nas casas e pelos candelabros nas igrejas, mas também por criminosos que aproveitaram a oportunidade para saquear palácios e igrejas.
Estima-se que dezenas de milhares de pessoas tenham morrido.
O sismo semeou destruição e morte em Portugal, Espanha e Marrocos, tendo os efeitos da vibração sido observados um pouco por toda a Europa.
Leiria faz parte do mapa da destruição. “O terramoto foi muito sentido em toda a região de Leiria. Houve sítios e lugares em que causou danos avultados, noutros, menos. Na costa atlântica teve mais impacto do que nas povoações das serras de Aire e Candeeiros”, explicou ao nosso jornal o historiador leiriense Saul António Gomes.
Segundo o também professor de História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o terramoto afetou, no geral, o “casario habitacional, sobretudo o de construções menos sólidas, e também monumentos e mobiliários urbanos”.
Na cidade de Leiria, Saul António Gomes adiantou que os danos foram, em geral, “mais localizados”, mas ainda assim “significativos”. “As fachadas da Sé de Leiria e de outras igrejas da cidade, tiveram de ser reconstruidas” e conventos como o de S. Francisco de Leiria “acabou por sofrer uma campanha de obras estrutural que lhe afetou toda a fachada”, contou, recordando que as obras de restauro foram sendo feitas nos anos seguintes à catástrofe.
O Castelo de Leiria, hoje considerado um dos maiores ex-libris da cidade, também não escapou. De acordo com o historiador, naquela altura, o monumento “já estava muito arruinado”, mas os fortes abalos do terramoto acabaram por “fragilizar ainda mais os muros e restos das suas torres medievais”.
As primeiras obras de restauro só aconteceriam muito mais tarde, entre os anos de 1915 e 1920, a partir de um projeto de restauro assinado pelo arquiteto Ernesto Korrodi. Todavia, ressalvou, o Castelo de Leiria “não era uma prioridade, em 1755, em termos de obras públicas necessárias na cidade”.
Os estragos não se limitaram à capital de distrito. “Todas as localidades e monumentos da região foram significativamente afetados”, lembrou. No Mosteiro da Batalha, por exemplo, “ruíram pináculos e abateu a cobertura piramidal da capela do Fundador”. Também o Mosteiro de Alcobaça “sofreu danos”.
Sobre as repercussões que o terramoto teve na vida económica e social da região, Saul António Gomes explicou que os impactos revelaram-se até “positivos” para o “mercado local das obras públicas e particulares”, não tendo afetado significativamente a vida social do território.
Depois desta catástrofe, conta, “houve uma mobilização por toda a parte das autoridades civis e religiosas, pedindo-se-lhes informações sobre os efeitos do terramoto”. Contudo, “os impactos negativos foram relativamente menores”, reforçou. Em alguns monumentos, “nunca se chegou a proceder à recuperação dos estragos”, como foi o caso do Mosteiro da Batalha.
A dimensão do desastre ficou bem documentada, desde logo através das descrições enviadas por “corregedores e provedores das comarcas às autoridades centrais” e, sobretudo, pelas “memórias sobre os efeitos do terramoto escritas por todos os curas e priores de cada paróquia do bispado de Leiria”.
Segundo referiu o historiador, existem ainda “referências em cartas de particulares e outra documentação municipal e eclesiástica”.
Passados 270 anos, o grande Terramoto de 1755 volta a ser lembrado. Hoje, pelas 09h40 - hora em que começou o sismo – a Câmara Municipal de Leiria, o Castelo de Leiria, bem como outros monumentos espalhados pelo país serão iluminados de roxo para assinalar a data.

Vidro da Marinha Grande ajudou a reconstruir Lisboa
Já lá vão 270 anos desde que Guilherme Stephens reabriu uma fábrica outrora fechada. O motivo: ajudar a reconstruir Lisboa depois do terramoto. A história de como vingou a indústria do vidro no concelho marinhense conta-se em poucas palavras, e tudo começou com o terramoto de 1755. Lisboa ficou totalmente destruída, obrigando Marquês de Pombal a recorrer à edificação de uma série de indústrias novas em Portugal que pudessem ajudar à reconstrução da capital portuguesa.
Surgiram as ‘reais fábricas’, entre elas, uma ligada ao vidro. Ocorreu, na altura, ao marquês, o facto de estar uma fábrica de vidros na Marinha Grande abandonada, que tinha sido fundada por um senhor irlandês John Beare, mas que acabou por fechar. Histórias contadas ao nosso jornal pelo investigador Gabriel Roldão, a propósito de uma reportagem realizada no Museu do Vidro, em 2019. Ora Guilherme Stephens, que já mantinha negócios com Marquês de Pombal, reabriu a fábrica, corria o ano de 1769.
Da Marinha Grande saíram as vidraças para ajudar à reconstrução de Lisboa, nomeadamente para todo o tipo de edifícios. Cumprida a missão, a fábrica de Guilherme Stephens começou a produzir vidro doméstico.
De Inglaterra, França, Itália e Alemanha chegaram artistas para ajudar à produção. Apressou o desenvolvimento artístico e técnico da fábrica. Estava lançado o setor vidreiro na Marinha Gran­de.

Movimento ‘Recordar 1755’ assinala evento

Para relembrar o terramoto de 1755 e sensibilizar a população para a importância da auto-preparação, o Movimento ‘Recordar 1755’ regressa para uma segunda edição com um conjunto de iniciativas por todo o país.
Esta iniciativa, iniciada no ano passado em Lisboa, expande-se este ano a várias cidades do país para assinalar este dia simbólico. Hoje à noite, monumentos em Lisboa, Setúbal, Leiria, Lagos, e Ponta Delgada serão iluminados de roxo, cor símbolo da iniciativa. No dia 1 de novembro, às 09h40 soará um coro de sirenes, num gesto simbólico de memória e de apelo à preparação para riscos sísmicos.
A Liga dos Bombeiros Portugueses fará ecoar as sirenes dos quartéis, juntando-se aos navios da Transtejo Soflusa no Tejo. Entre os monumentos iluminados contam-se o Cristo-Rei, a estátua do Terreiro do Paço, a Câmara Municipal de Lisboa, o Castelo dos Mouros em Sintra, a Câmara e o Forte de Setúbal, o Castelo de Leiria, a Igreja de Santo António em Lagos, as Portas da Cidade de Ponta Delgada, entre outros. A iniciativa convida ainda a população a pendurar uma peça roxa nas janelas e partilharem foto nas redes sociais com a hashtag #recordar1755, como gesto de memória coletiva e solidariedade.

Outubro 31, 2025 . 13:01

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