Quando nos cai uma máscara de oxigénio no colo
À medida que as viagens de avião se vão tornando mais frequentes nas nossas vidas, temos tendência para, simplesmente, ignorar aquele momento inicial em que, enquanto nos acomodamos em lugares mais ou menos apertados, nos surgem os hospedeiros de bordo pelos corredores, que nem bailarinos fardados, para darem início à sua coreografia.
Entre gestos sincronizados e ligeiros, fazendo tudo parecer fácil, encaixam cintos no ar, assinalam saídas de emergência, vestem coletes insufláveis e eis que se simula a queda das máscaras de oxigénio, que ali ficam suspensas diante de nós. Paro neste ponto, antes mesmo da viagem começar. A orientação que nos é dada é clara e soa a qualquer coisa como: “Em caso de despressurização da cabine, máscaras de oxigénio cairão automaticamente do seu compartimento. Deverá colocar, em primeiro lugar, as máscaras a si mesmo e, só depois, ajudar terceiros - incluindo crianças». Que importante lição! Seja para as viagens de avião, seja para o nosso quotidiano.
Nos dias lotados, corridos, espremidos, pesados, conciliamos horários em agendas cruzadas, corremos pelo ‘urgente’, pelo ‘tem que ser’ e pelo ‘a não esquecer’. Quando somos cuidadores de terceiros, sejam eles filhos ou pais, a sobrecarga agiganta-se: as atividades de uns, as consultas de outros, verificar trabalhos de casa, a roupa lavada, seca e dobrada, o jantar a horas decentes, banhos, medicações, histórias para alguém adormecer… E, depois, antes mesmo de, finalmente, se parar, ainda vem a lembrança da receita que ficou por levantar na farmácia, da caderneta que não foi assinada, do pagamento que ainda está pendente. E nós próprios? Onde cabemos neste ranking de prioridades?
A vida é uma emergência em si mesma. À nossa frente, máscaras de oxigénio imaginárias balançam, marcando o compasso pendular da passagem do tempo. Mas será que pegamos nelas e nos permitimos respirar, antes de acudir às necessidades de todos os outros? O auto-cuidado é isso mesmo: é sabermos priorizar o nosso bem-estar. Não sou grande fã da frase batida: ‘Sê a tua melhor versão’, sobretudo quando esta ideia, dita de forma sensacionalista, facilmente resvala para uma exigência vaidosa e egoísta, distante daquilo que é, efetivamente, o auto-cuidado.
Fica, pois, o desafio: equilibrar a vida pessoal e profissional, investir em relações interpessoais enriquecedoras e significativas, adotar em hábitos saudáveis ao nível da alimentação, exercício físico e sono, realizar atividades prazerosas (sejam elas quais forem) e, muito importante: pedir ajuda quando necessário.
Há quanto tempo adia aquela consulta de rotina ou exame específico difícil de marcar, a visita aquele(a) amigo(a) que não vê há anos, o concerto da sua banda favorita, eternamente adiado, uma tarde só sua para descansar, uma caminhada sem tempo contado? Carregar no botão de ‘pausa’, volta e meia, importa. Mesmo que tal implique deixar para trás uma ou outra coisa daqueles de quem cuidamos, merecemos e necessitamos de ver aplicada a máxima: ‘nem sempre, nem nunca’. Vá lá: pegue na máscara de oxigénio. Inspire, expire… e cuide de si. Os que mais ama agradecerão.





