A greve geral do Estado
A alteração das leis do trabalho pretendida pelo governo da AD, conduziu a uma greve chamada geral decretada pela CGTP e da UGT, dois acontecimentos que resultam do amadorismo do primeiro-ministro e do governo. Vejamos algumas razões da ausência de experiência, de conhecimento e de bom senso do governo.
Primeira razão: Tendo o governo a obrigação de conhecer a habitual oposição do PCP e da UGT a todas as alterações dos chamados direitos adquiridos, propor mais de cem alterações é suicidário. Seja porque tanta alteração toca a todos e a todos os gostos, o que generaliza e facilita a oposição, porque dificulta a defesa de tanta coisa junta, ao mesmo tempo porque, como habitualmente, a ausência de foco estratégico anula os efeitos desejados da proposta.
Segunda razão: Porque não se trata de uma greve geral, mas de uma greve do Estado, o seu efeito recai quase exclusivamente sobre o patrão Estado e muito pouco, ou nada, sobre a actividade privada, argumento que praticamente não foi usado pelo governo.
Terceira razão: Porque o tratamento das propostas do governo coloca em causa o patrão Estado e não as empresas privadas, o que demonstra que os privados sabem o que fazer nas suas relações com os trabalhadores e o Estado e o governo não conhecem as regras mínimas dessa relação.
Ou seja, esta questão das leis do trabalho chega para demonstrar que o primeiro-ministro Luís Montenegro não está preparado para o cargo e escolheu ministros que na sua maioria, há excepções, são igualmente amadores, o que é algo que já suspeitava de outras decisões, seja na energia, na justiça, na economia e nas infraestruturas e habitação. Com a nota de que no caso da economia não se trata de amadorismo, mas de uma outra questão: a ausência de debate estratégica dos partidos PSD e CDS e da ignorância geral dos factores que afectam generalizadamente a economia portuguesa: (a) pequena dimensão das empresas, a esmagadora maioria comerciais; (b) exportações insuficientes para uma pequena economia, com um pequeno e fraco mercado interno, resultado do nível insuficiente de industrialização, o que é uma das causas da existência de tantas pequenas empresas comerciais, o que resulta do insuficiente emprego industrial. Trata-se de uma cadeia de factores negativos que impedem o crescimento da economia e das exportações: as muito pequenas empresas comerciais não exportam e são importadoras.
Esta questão do amadorismo dos governos tem-se acentuado ao longo do tempo e neste capítulo o governo seguinte é sempre pior do que anterior. Trata-se do modelo errado da escolha das pessoas para a actividade política, escolha feita por razões crescentes de fidelidade política e não de competência profissional. Ou seja, um menos experiente profissional escolhe por protecção pessoal alguém que o não critique ou coloque em causa. O que só pode ser alterado por uma revolução, ou pela alteração do modelo a partir da base, ao dar ao povo o direito da escolha dos deputados.
Uma nota adicional: não creio que Luís Montenegro seja pior primeiro-ministro, ou mais amador do que o seu antecessor António Costa, na medida em que António Costa adicionava ao seu amadorismo um projecto pessoal e um certo maquiavelismo político que lhe permitia controlar os seus objectivos.





